Quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Notícias

/

Política

/

Ex-presidente da Câmara de SP, Milton Leite é considerado foragido em operação contra o PCC

Política

Ex-presidente da Câmara de SP, Milton Leite é considerado foragido em operação contra o PCC

Ex-parlamentar é alvo de mandado de prisão na Operação Vectura Corrupta, que investiga suposta infiltração da facção em empresas de ônibus e decisões do poder público em São Paulo

Ex-presidente da Câmara de SP, Milton Leite é considerado foragido em operação contra o PCC

Foto: Paulo Gomes/TV Globo

Por: Metro1 no dia 17 de setembro de 2026 às 10:51

O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) é considerado foragido pela Polícia Civil após não ser localizado durante o cumprimento de um mandado de prisão nesta quinta-feira (17). Ele é um dos alvos da Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo.

Os policiais foram até a casa de Milton Leite para cumprir o mandado, mas não o encontraram. Segundo apuração da GloboNews, as circunstâncias encontradas no imóvel levaram a polícia a considerá-lo foragido. Os agentes permanecem no local para cumprir o mandado de busca e apreensão.

Milton Leite, por sua vez, nega que esteja foragido. Em nota enviada por sua assessoria, afirmou que está viajando e que pretende se apresentar às autoridades.

“Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou.

Por telefone à TV Globo, o ex-parlamentar também negou envolvimento com as acusações e afirmou ser alvo de “perseguição”.

“Eu não tô trabalhando. Eu nem conversei com o advogado. Me parece ser perseguição. Nego qualquer acusação das afirmações apresentadas. Que apresente uma única prova”, afirmou. “Eu nego veementemente as acusações. E não estou foragido. Vou me apresentar.”

De acordo com informações obtidas durante a diligência, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha.

O que diz a investigação

Segundo a investigação, decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite.

A conclusão, segundo os investigadores, foi baseada na análise de interceptações envolvendo operadores e em elementos de outras apurações sobre a atuação do ex-vereador. No pedido que fundamentou a operação, Milton é citado como responsável direto pela operação de algumas empresas que, de acordo com a investigação, seriam controladas pela facção.

O documento também menciona declarações de policiais militares prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais Milton seria o dono de fato da Transwolff.

A Transwolff foi alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em 2024. O então presidente da empresa, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, foi preso sob suspeita de ligação com o PCC.

A investigação da Vectura Corrupta também aponta que Alfa Rodobus e Sancetur assumiram operações anteriormente realizadas pela Transwolff e pela UpBus após a operação de 2024.

Outros alvos

Ao todo, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.

Entre os presos estão Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e era candidato a deputado estadual.

Segundo os investigadores, embora Levi não apareça como interlocutor direto de José Daniel Satilite, apontado como um dos personagens centrais do esquema, os dois teriam mantido encontros periódicos. A investigação afirma que as reuniões tratavam de interesses da facção relacionados a empresas de transporte, especialmente após a Operação Fim da Linha.

Danilo Morgado também já havia sido alvo de busca e apreensão na Operação Decurio. De acordo com a Polícia Civil, a nova etapa identificou um “forte vínculo” dele com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha à Prefeitura de Praia Grande teria sido financiada pela organização criminosa. O registro de candidatura dele para deputado estadual foi cassado.

A defesa de Levi afirma que ele não possui antecedentes e que construiu, ao longo de décadas, uma trajetória de serviços públicos prestados a São Paulo, tendo atuado na SPTrans, onde, segundo os advogados, se consolidou como referência técnica em sua área.

Empresas sob investigação

A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo de passageiros que, segundo a polícia, seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.

Parte dessas empresas já havia aparecido em investigações anteriores da Polícia Civil e do Ministério Público sobre a atuação do PCC no setor.

Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos indicam uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com participação de integrantes e intermediários da facção em empresas e procedimentos licitatórios.

Questionado sobre os possíveis impactos da operação no transporte público da capital, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não há risco de interrupção do serviço.

“Nenhum risco. Fiz a intervenção em 2024 na Transwolff e [decretei a] caducidade. Essa empresa é administrada pela prefeitura”, afirmou.

‘Sintonia dos Gravatas’

Outra frente da Vectura Corrupta investiga a chamada “Sintonia dos Gravatas”, núcleo formado por advogados que, segundo a polícia, atuaria em benefício do PCC para além do exercício profissional da advocacia.

Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. Conforme a investigação, escritórios e contas bancárias teriam sido utilizados para reuniões, movimentações financeiras e outras atividades de interesse da facção.

José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, é apontado como um dos principais investigados. A Polícia Civil afirma que ele integra o PCC e atuaria como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da organização criminosa.

De onde partiu a investigação

A Operação Vectura Corrupta é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

A apuração é desdobramento de operações anteriores. Em abril de 2026, a Polícia Civil e o Ministério Público realizaram a Operação Contaminatio, que investigou uma fintech administrada pela facção e suspeita de ser utilizada para facilitar a infiltração em prefeituras. Na ocasião, investigadores desarticularam uma rede de doleiros e operadores de criptoativos ligada à lavagem de dinheiro e prenderam um ex-vereador de Santo André.

A origem da investigação, porém, remonta à Operação Decurio, realizada em agosto de 2024. Após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba, investigadores extraíram dados do celular da mulher de um dos líderes do PCC. O material levou à identificação e prisão de integrantes da chamada “Sintonia Final” e à descoberta da fintech, que, segundo a investigação, chegou a movimentar cerca de R$ 8 bilhões.

Foi ainda na primeira fase que surgiram evidências sobre a atuação política da organização, incluindo campanhas de vereadores supostamente patrocinadas pela facção e o envolvimento de servidores comissionados em prefeituras do estado.

Milton Leite deixou a vida pública em 2024, após sete mandatos como vereador e quatro períodos à frente da Câmara Municipal de São Paulo. Atualmente, preside o União Brasil na capital paulista. Em julho deste ano, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP).