Política

Moro não vê Lava Jato como vilã da engenharia nacional: 'Só atingiu pessoa física'

Ex-juiz da Lava Jato avalia que empresas demoraram a colaborar com investigações: 'Hemorragia que não consegue estancar'

[Moro não vê Lava Jato como vilã da engenharia nacional: 'Só atingiu pessoa física']
Foto : Isac Nóbrega/PR

Por Matheus Simoni no dia 13 de Julho de 2020 ⋅ 12:32

O ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro negou que a Operação Lava Jato, que teve origem no Paraná, tenha responsabilidade por danos provocados contra empresas de engenharia do país. Em entrevista a Mário Kertész hoje (13), durante o Jornal da Bahia no Ar da Rádio Metrópole, ele comentou que os desvios promovidos por dirigentes, agentes e políticos na Petrobras e em órgãos públicos foi maior do que qualquer prejuízo provocado em empreiteiras.

Para Moro, a situação se agravou por conta do cenário de recessão pela qual vivia o país. "O que acontece é que, no fundo, esse pagamento de suborno disseminado prejudica a economia. No ponto de vista da administração pública, desvia recursos. Na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, se gastou uma estimativa de 18 bilhões de dólares ou mais e a refinaria não ficou pronta totalmente. Valores muito maiores do que deveria ser um valor de custo da refinaria. Ninguém é contra refinaria no Nordeste, mas quantas refinarias poderiam ser construídas por 18 bilhões de dólares?", questiona o ex-magistrado.

"Isso aconteceu por subornos, desvios e esses subornos fazem com que os administradores e gestores tomarem decisões erradas. Ao invés de pensar no melhor para a Petrobras, pensa no negócio que vai gerar dinheiro. Por que vai comprar uma refinaria velha em Pasadena, nos EUA?", acrescentou. 

Ainda de acordo com Moro, os crimes no âmbito das estatais se revelaram com maior intensidade por envolvimento com políticos. A movimentação de valores, segundo o ex-juiz, foi maior ainda do que possíveis danos neste setor. "O custo é muito grande. A maioria dos crimes no âmbito da Petrobras eram crimes que as empresas queriam trapacear a concorrência, burlar e distorcer. Se você não tem isso, teria contratos mais baratos, além de concorrência legal no mercado, o que é bom para a economia e otimiza a economia", disse. 

Na avaliação do ex-juiz federal, a corrupção enraizada em grandes empreiteiras não inviabilizou o funcionamento delas. Ele cita acordos de leniência firmados com o Ministério Público Federal (MPF) para cooperação nas investigações. No entanto, de acordo com Moro, muitas demoraram de colaborar, o que gerou uma "hemorragia".

"Antigamente, algumas teorias econômicas diziam que a corrupção seria boa para a economia porque seria o óleo que faz a máquina engrenar. Hoje todo mundo, no mundo inteiro, sabe que ela é alheia e impede a engrenagem de ocorrer. No caso da Lava Jato, só quem foi atingido foi a pessoa física. O MPF sempre deu às empresas a oportunidade de fazer acordos de leniência, que era para reconhecer a culpa, indeniza os cofres públicos e entrega provas de seus crimes. Sempre foi uma porta aberta, muitas acolheram. Agora, muitas demoraram de fazer essa opção de colaborar e isso gera danos, vira uma hemorragia que você não consegue estancar", disse.

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