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Jeferson Tenório critica restrições a livros sobre violência: “Ninguém censura a notícia”
Autor do romance vencedor do Jabuti em 2021 falou sobre racismo, violência policial e a importância da arte para revelar histórias que costumam ser reduzidas a estatísticas

Foto: Reprodução/Youtube
O professor e escritor Jeferson Tenório destacou a relação entre sua trajetória pessoal, Porto Alegre e os temas sociais presentes em sua produção literária. Em entrevista ao Jornal da Bahia no Ar, nesta terça-feira (11), o autor falou sobre a construção de sua carreira e sobre a repercussão de "O avesso da pele", romance que aborda questões raciais, violência e desigualdade no Brasil.
Segundo Tenório, Porto Alegre teve papel central na formação de sua identidade como leitor, professor e escritor. Foi na cidade, onde viveu por grande parte da vida, que ele desenvolveu o universo literário e criou personagens que passaram a integrar suas obras. Para o escritor, a capital gaúcha é marcada por contrastes e contradições, especialmente para a população negra. “É uma cidade belíssima, mas que para a população negra às vezes é um pouco difícil. Majoritariamente é uma população branca, os bairros são muito setorizados, me chamou muito atenção”, afirmou.
Entre suas obras, "O avesso da pele" ganhou destaque ao abordar a experiência de uma família negra diante do racismo e da violência, além de discutir as marcas deixadas por essas experiências. O romance rendeu a Tenório o Prêmio Jabuti em 2021 e chegou a integrar listas de leitura adotadas por escolas, mas também esteve no centro de uma discussão sobre censura de livros.
Tenório relembrou que a polêmica começou em 2021, quando uma diretora de uma escola do interior do Rio Grande do Sul gravou um vídeo criticando um trecho da obra que continha palavrões. O conteúdo se espalhou pelas redes sociais e provocou questionamentos sobre a presença do livro nas escolas. Segundo o escritor, alguns estados chegaram a recolher exemplares, apesar de a obra ter passado por uma comissão do Ministério da Educação antes de ser incluída entre as leituras indicadas.
Para o autor, a discussão revelou um conflito sobre o papel da literatura ao tratar de temas considerados difíceis. Ele comparou a reação ao livro com a maneira como a violência policial é apresentada diariamente no noticiário. “A gente vê violência policial praticamente todos os dias nos noticiários e ninguém censura a notícia. Agora, quando isso vem com a arte e com a literatura é aí que ela toca nas pessoas de outra forma”, afirmou.
Na avaliação de Tenório, a literatura consegue ir além da apresentação de números e estatísticas ao humanizar pessoas afetadas pela violência e pelo racismo. “Você tira aquela pessoa de uma simples estatística e transforma em uma vida. Vai nas raízes”, disse. O escritor defendeu, assim, a importância da arte como instrumento para aproximar o público de questões sociais e expor problemas que muitas vezes são tratados apenas de forma superficial.
Confira a entrevista íntegra:
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