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Saúde

Vozes da Linha de Frente: ‘Estão ignorando a pandemia’, diz médico

Profissionais de saúde contam como estão lidando com a mais grave crise sanitária da história; relatos registram cansaço, luta e força de vontade de quem não abandonou a missão de salvar vidas

[Vozes da Linha de Frente: ‘Estão ignorando a pandemia’, diz médico]
Foto : Reprodução/Arquivo Pessoal

Por Geovana Oliveira no dia 21 de Janeiro de 2021 ⋅ 08:01

Cansados. Estafados. Exaustos. São as palavras repetidas pelos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à pandemia da Covid-19. Desde o dia 6 de março de 2020, quando o primeiro caso de coronavírus foi confirmado na Bahia, mais de 374 mil trabalhadores da área - médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de serviços gerais - trabalham sem cessar.

Entre esses profissionais, equipados com gorros, capotes e máscaras, macacões, face shield e luvas, cerca de 38 mil foram infectados pela doença. Não há registro oficial do número de óbitos em todo o setor. Um levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), no entanto, aponta que 17 enfermeiros baianos morreram vítimas da Covid-19. 

Dez meses depois, iniciada a vacinação, os trabalhadores da linha de frente não recebem mais aplausos na janela, mas continuam no enfrentamento da pandemia. Cada vez mais cansados, parecem ser os poucos que restaram no combate da doença.

“Nessa segunda onda, o que a gente vem notando é que as pessoas estão vivendo normal. Não tem mais tanto aquele medo do início”, relata Elmar Dourado, médico do Samu e coordenador do gripário do 16º Centro de Saúde. “A população basicamente está ignorando a pandemia".

Os profissionais de saúde já haviam adiantado que as festas de fim de ano refletiriam em um aumento de casos da Covid-19. Os números do Gripário de Pau Miúdo, em Salvador, não mentem. Só até o dia 18 de janeiro, a unidade, organizada para receber pacientes com sintomas respiratórios durante a pandemia, atendeu 2.664 pacientes, contra 1.673 em todo o mês de novembro, e 1.155 em outubro.

A fisioterapeuta intensivista Sabrina Corrêa conta que, nas últimas semanas, os hospitais onde trabalha receberam pacientes com coronavírus que estavam no litoral, como Praia do Forte, Itacaré e Ilhéus, locais que tiveram festas e aglomerações no Réveillon. “Depois sobra para a gente”, afirma, bem humorada. Sabrina dá plantões de 12 horas no Hospital Espanhol, no Ernesto Simões e no Itaigara Memorial, chegando a trabalhar 36 horas de plantão se somado o tempo nos diferentes centros.

Depois de meses lidando com a pandemia, ela diz que "pegou mais o ritmo", e já não precisa se trancar no banheiro para chorar. Um plantão de 24 horas também não parece tão grande assim. Mas ressalta que não tem como ficar insensível. "É uma doença que chega assim do nada e às vezes a pessoa tá ótima e pouco depois vem a óbito. Acaba que mexe com a gente. Tem a situação também de estresse. Muito trabalho, muito tempo. A gente fica cansado física e emocionalmente". 

Depois de quase um ano no combate à pandemia, trabalhando de domingo a domingo, só agora o infectologista Fábio Amorim conseguiu tirar dez dias de folga das emergências do Instituto Couto Maia e do Hospital São Rafael. Ele conta que as férias de todos os médicos haviam sido suspensas, mas a equipe chegou a um grau de desgaste tão grande que foram concedidos pelo menos 10 dias a cada um. Como uma das médicas da equipe de Fábio pode ter sido diagnosticada com Covid-19, no entanto, talvez o descanso dele precise ser encurtado. 

Onde trabalha, Fábio continua sendo um dos poucos que não foram infectados pelo vírus. No grupo de infectologistas, eles estão fazendo um bolão: quem vai ser o último a cair. 

O Dr. Elmar, coordenador do gripário do Pau Miúdo, infelizmente não gozou da mesma sorte. Foi contaminado duas vezes, com sintoma e resultado positivo nos testes. Assim como o enfermeiro intensivista do Hospital Alayde Costa, Albert Oliveira, que também conta ter passado por uma reinfecção. As duas ainda estão sendo investigadas pelo Ministério da Saúde. 

Apesar de agora estarem bem, e às vezes até brincarem sobre o assunto, há sempre um medo que ronda. No Alayde, onde Albert trabalha, uma dessas infecções tirou a vida de um técnico de enfermagem. E na equipe de médicos do Samu, da qual Elmar faz parte, um jovem formado há poucos anos precisou ser internado na UTI.
 
Além do medo, do cansaço físico, e das próprias contaminações, a exaustão dos profissionais vem também da rotina que a pandemia impõe. “A gente cuida de gente”, explica o Dr. Fábio sobre o trabalho dos profissionais da linha de frente. Isso implica em não julgar quem está sendo cuidado, independente das decisões que tenham levado a pessoa até ali. Mas, principalmente, em lidar com o sofrimento, o desespero, e as dores do paciente e da família. 

Cada um tem histórias marcantes para contar sobre os dez meses passados desde o início da pandemia. “Como foi um ano que a gente acabou tendo poucas experiências outras que não a Covid, o que marcou 2020 foram as experiências dramáticas do hospital”, afirma Fábio. Ele diz ter envelhecido 5 anos só nesse tempo. Mas repete: um dia após o outro. 

"Um dia após o outro". "A gente continua, né". "É gratificante poder ajudar". Também foram frases faladas pelos profissionais de saúde entrevistados para esta reportagem. Alguns já foram vacinados, outros ainda estão na expectativa, mas todos se preparam para os próximos meses difíceis da pandemia. Na linha de frente. 

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