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Em novo artigo, Francisco Hora mostra os efeitos de quem enfrenta a 'Odisseia do Sono'

Saúde

Em novo artigo, Francisco Hora mostra os efeitos de quem enfrenta a 'Odisseia do Sono'

Médico especializado em Medicina do Sono aborda complicações de quem luta para não dormir ou acha que mais dez minutos na cama vai resolver os problemas de quem passou boa parte da noite em claro

Em novo artigo, Francisco Hora mostra os efeitos de quem enfrenta a 'Odisseia do Sono'

Foto: Metropress

Por: Francisco Hora no dia 31 de agosto de 2026 às 13:05

A “Odisséia” original perdeu o seu acento com o novo acordo ortográfico, mas nunca perdeu a fama e a beleza extraordinárias, atribuídas a Homero. No jargão contemporâneo, passou a ser sinônimo de qualquer jornada ou tarefa, difícil, longa e cheia de imprevistos, como se tornou o simples ato de dormir nos dias de hoje – uma verdadeira Odisseia!

Dormir deveria ser algo simples, até porque a humanidade o pratica há milhares de anos, sem manual de instruções, sem aplicativos, sem nem saber o que era melatonina. Bastava anoitecer, encontrar um local razoavelmente seguro e fechar os olhos. Até que criamos a Vida Moderna, com aversão completa ao deleite do sono. 

Tudo começa pela manhã, após uma noite mal dormida: “Hoje vou dormir mais cedo”, talvez a mentira mais vezes propalada. Usualmente pronunciada às seis da manhã e completamente esquecida às onze horas da noite, quando o “mentiroso contumaz” está no celular pesquisando algo indispensável, como “por que os ácaros proliferam no meu quarto de dormir sem a minha permissão?”. Enquanto isso, o sono espera, mas embora educado, ele não tem a paciência de Jó. 

Às dez da noite ele já mandou o primeiro aviso ignorado solenemente: um gentil bocejo. Às dez e meia, os olhos ficam pesados. Resistimos. Às onze da noite, o cérebro já reduzindo as suas funções executivas, sugere: “que tal irmos para a cama?”. Quando finalmente se chega à cama, acontece um fenômeno curioso – o sono desaparece. 

Assim do nada, o corpo está cansado, os olhos ardem, mas o cérebro, teimoso como ele só, resolve convocar uma reunião extraordinária, e do nada, surge a pauta da madrugada:  

1) Os boletos que vencem amanhã; 
2) Uma dor nas costas que talvez seja um câncer metastático; 
3) O sentido da vida 
4) Onde estarão os óculos que sumiram há três semanas? 

Às duas da manhã, o penitente que não lembra onde deixou os óculos, resgata com nitidez impressionante uma conversa ocorrida há 20 anos e começa a reescrevê-la: “Eu deveria ter respondido à altura!”. Acreditem, às duas e meia da manhã surgiu uma resposta perfeita para uma discussão de 2006. 

De soslaio, observa o relógio marcando 2h37 e aí vem a cruel aritmética do sono: “Se dormir agora ainda me restarão 5 horas e 23 minutos”. Às 3h12: “4 horas e 48 minutos ainda dá”. Às 4h16: “Existem pessoas que funcionam bem com 3 horas de sono” e, mesmo que não as conheçamos, à essa altura estamos dispostos a acreditar em qualquer coisa. 

Eis que, finalmente, o almejado sono chega, pleno, maravilhoso e logo o despertador toca. Inicia-se de imediato outra negociação: “Só mais dez minutinhos, por favor”. E, logo se constata uma das maiores demonstrações do otimismo humano, acreditando que mais dez minutinhos transformarão uma criatura biologicamente devastada em um adulto funcional. 

Quando finalmente desperto, de pé, renova-se a promessa solene: “Hoje vou dormir mais cedo”, recomeçando a grande Odisseia do Sono. Passamos um terço da vida dormindo e boa parte dos outros dois terços tentando descobrir por que não dormimos direito, mas aqui entre nós, quando o sono te visitar às dez da noite não brigue com ele, até porque a alternativa seria descobrir porque os ácaros proliferam no seu quarto sem a sua permissão!