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Segunda-feira, 15 de abril de 2024

Saúde

Álcool e drogas não devem ser válvula de escape durante isolamento, diz psicanalista

Em entrevista à Rádio Metrópole, Marcelo Veras também afirmou que a pandemia obriga as pessoas a lidar com a solidão e ressignificar a vida

Álcool e drogas não devem ser válvula de escape durante isolamento, diz psicanalista

Foto: Matheus Simoni / Metropress

Por: Juliana Rodrigues no dia 22 de março de 2020 às 12:44

O psicanalista e comentarista da Rádio Metrópole, Marcelo Veras, fez um alerta sobre os riscos envolvidos no uso de álcool, drogas e medicamentos como recurso para suportar o isolamento na pandemia de coronavírus. Em entrevista a Mário Kertész, no início da tarde de hoje (22), Veras afirmou que em situações extremas como essa, é preciso aprender a lidar com o sofrimento em vez de usar substâncias como válvula de escape.

"Quando nos apoiamos demais no medicamento, no álcool e nas drogas para suportar as coisas difíceis, quando realmente aparece algo muito difícil, a gente não tem mais instrumentos pra poder reagir. (...) Muitas vezes, o que a gente precisa é saber suportar isso. Chegou o momento que um problema sério chegou às nossas portas e pode haver grande necessidade de recursos químicos", analisou.

Na avaliação de Veras, além de evidenciar a solidão da sociedade moderna, a pandemia faz com que as pessoas sejam obrigadas a ressignificar o sentido de suas ações. "Nesse momento a gente tem que cada vez mais se apoiar nos dispositivos da cultura para transcender a simples banalidade da existência cotidiana. Nós fomos despertados de um certo sono no trabalho, nos WhatsApps da vida, em um mundo muito narcísico. É impressionantes, depois de uma semana de confinamento, a gente olhar pros armários e ver a quantidade de coisas que a gente não precisa. (...) Algumas pessoas achavam que não havia vida para além das baladas, dos cultos, do consumo, é importante esse momento como uma pulsão de vida", disse.

O psicanalista também destacou que a ocorrência da pandemia de coronavírus coloca em questão o modelo neoliberal, que estabelece menor interferência do Estado na economia, além de ocorrer em meio ao fortalecimento de discursos de negacionismo da ciência.

"Esse aspecto global da situação faz com que a gente perceba a quantidade de pessoas que estão passando por uma situação de grande stress, inclusive financeiro. A quantidade de comerciantes, pessoas que agora não sabem mais como se colocar diante do mundo. Me parece que o que realmente agora está sendo colocado em questão é esse ser humano abandonado a ser empreendedor de si mesmo, com um Estado que dá muito pouco apoio, e uma interrogação sobre o que é o retraimento do Estado em dois itens fundamentais: educação e saúde. (...) Seria cômico, se não fosse trágico, o fato de isso acontecer em um momento de negacionismo", disse.