A Sala Neojiba e os entornos da Lapinha

Equipamento deve servir de base para revitalização daquela área do Centro Histórico, tão importante quando o Santo Antônio

[A Sala Neojiba e os entornos da Lapinha]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 20 de Agosto de 2019 ⋅ 13:51

Há pouco mais de um mês saudei com entusiasmo a inauguração da sede do Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), no Parque do Queimado, Liberdade. Na ocasião, eu clamava que a sala projetada e construída com tanto esmero servisse de totem, de modelo, para novos empreendimentos na Bahia. Mas, a verdade é que não precisamos ir longe: ali mesmo, ao redor da Sala Neojiba (ou seja, no Queimadinho, na Lapinha, Soledade, Caixa D’Água etc) há toda uma Bahia pedindo atenção e cheia de vigor para dar.

A verdade é que não adianta Salvador de repente descobrir as maravilhas do Santo Antônio Além do Carmo (engraçado, parece que até ontem ninguém reparava nesse bairro que está aqui desde o Século XVII) e solenemente ignorar a Lapinha onde os Caboclos descansam, a Soledade dos doces magníficos, o Queimadinho da água boa de se beber. Antes, é preciso integrar o Centro Histórico em toda sua extensão e magnitude, o que inclui esses bairros, peças fundamentais do grande quebra-cabeças que somos nós.

Há alguns anos a Soledade virou notícia por causa do desabamento de uma construção irregular que fez vítimas fatais. Em junho último, outro casarão desabou ali, dessa vez, graças a deus, sem vítimas. Ocorrências assim sempre afetam, porém, as aulas no Colégio Estadual Carneiro Ribeiro Filho, e talvez seja por isso que a história do local venha passando tão despercebida e ninguém se lembre (aparentemente nem os governantes) que o que hoje desaba de podre, já foi mostra orgulhosa de nosso progresso.

No próprio edifício onde agora está a Sala Neojiba, funcionou a primeira empresa de água potável do país, a Companhia de Águas do Queimado, fundada em 1852. Esse empreendimento foi uma revolução graças ao sistema de captação das águas do Rio do Queimado e sua distribuição mediante bombas elevatórias para chafarizes públicos instalados em diversos pontos da cidade. Àquela ousadia correspondeu todo um desenvolvimento dos arredores, da região. E Cabe-nos agora, daqui pra frente, dar a mesma repercussão à sede dos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia e rejuvenescer a Lapinha do Padre Pinto e afins.


Companhia de Águas do Queimado com o Convento da Soledade ao fundo, 1880.

A Fonte de água pura que o Imperador visitou hoje é criatório de bichos pestilentos

Aliás, a Fonte do Queimado (hoje uma esculhambação vergonhosa, alô prefeitura!) tem também uma história que merece ser contada ainda que rapidamente. Descoberta pelos jesuítas no Século XVII e edificada em 1801, dela brotava uma das melhores águas de se beber da Cidade da Bahia. É o que se lê na “Recopilação de Notícias Soteropolitanas e Brasílicas” do ferino helenista Luís dos Santos Vilhena — figura que mereceria três artigos só pra ele. Escreveu Vilhena: "Não há dentro na cidade uma única fonte, cuja água se possa beber, quando para gasto não abundam".

E faz a ressalva de que, detrás do convento da Soledade havia a fonte do Queimado, "de água excelente para beber, donde a manda buscar quase toda a gente da Praia, e muita parte da cidade". Nem o Imperador Pedro II resistiu à pureza das águas do Queimadinho e, em 1859 esteve na fonte, junto à Imperatriz Teresa Cristina, cada qual com sua cuia real, para provar daquela maravilha que hoje só serve para lavar carros e criar mosquitos da dengue.

Mas a Sala Neojiba, com seu silêncio prenhe de sentidos, está ali para a redenção. E não está sozinha. A despeito de todo desleixo, a Lapinha vem se reinventando, sobretudo o setor gastronômico, com bares e restaurantes como Entre Folhas e Ervas e Petiscaria 180°, que vêm se juntar aos tradicionais Paisagem, Belvedere e Point do Kibe (este na Soledade, dica de  Acácia Lirya). Além da Barbearia Linha 8, que também funciona como bar, com direito a mesa de sinuca, arcade etc.


Petiscaria 180°, na Lapinha, tem uma das mais belas vistas da baía de Todos-os-Santos

E por falar em sabores e em saberes, me permitam só mais uma nota histórica, dessa vez lembrando Manuel Querino: “O Convento da Soledade sempre se avantajou aos demais no preparo de doces, sendo frequentes as encomendas para fora do Estado, e até para o estrangeiro”, assinalou ele em “A Arte Culinária na Bahia”. Como se vê, temos um típico caso de vocação. Vocação para a qual o nosso agir se faz necessário. Agora, porém, produzindo, curtindo e exportanto não apenas doces, mas também música — esse outro cultivo eclesiástico.  

Eis o que eu quero dizer: o boom do Santo Antônio precisa dar uma esticada e incluir Soledade, Lapinha e adjacências, locais de forte tradição cultural da cidade. E para isso devem se unir a comunidade (incluindo os neo-baianos que descobriram a Cruz do Pascoal na novela da Globo) e os poderes públicos: prefeitura, Iphan, Ipac, etc. A última reforma da Fonte do Queimado, por exemplo, aconteceu em 1992. Para a tarefa, a Sala Neojiba e a sagacidade do Maestro Ricardo Castro (que operou com audácia, honrando nossa melhor tradição) devem servir de modelos. É só.

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