A força centrípeta da lama

Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[A força centrípeta da lama]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 20 de Agosto de 2020 ⋅ 08:20

A história dos dias no Brasil é uma sucessão de episódios desconexos de uma série que ora é um freak show digital, ora uma distopia fundamentalista. Toda hora uma vertigem de desacontecimentos inúteis nos traga, como uma força centrípeta girando numa velocidade alucinada para um fundo aonde não se chega nunca.

Do nada, começa a rodar no seu celular o vídeo de um casal copulando no cenário de um barracão branco em desmonte. Na tela de um computador de alguém que diz se chamar Patrícia, faz-se sexo enquanto meia dúzia de pessoas em janelas on-line discute a reintrodução da merenda na vida dos estudantes das escolas públicas do Rio de Janeiro. Um fala de merenda, outro cobra a ausência de alguém e outro, alheio à fome dos estudantes, é a estrela da pantomima erótica, com a bunda na tela e o vaivém frenético dos quadris contra um corpo que não se sabe se é de Patrícia ou de outra parceira que por descuido ou exibicionismo alimenta o voyeurismo dos participantes da reunião convocada pelo herdeiro de Leonel Brizola.

Nas bordas da lama que vai da merenda ao sexo, a plateia das redes. São gargalhadas, frases de efeito, diagnósticos antropológicos sobre o país e revolta com a prioridade atribuída à cena de sexo pela audiência em detrimento da seriedade de uma reunião sobre merenda. Noutra margem, feministes trocam o verbo e ficam zangades porque não taparam na tela o nome de Patrícia. Não é porque alguém resolve transar na frente de uma câmera aberta para uma reunião de vereadores que se pode veicular uma cena onde aparece o nome de uma mulher, argumentam ativistes, atirando contra o patriarcado que faz exposed.

Cobra-se uma sororidade que deve prevalecer entre mulheres. Exigem um mundo, o virtual, inclusive, todo safe space, com chão, parede e céu forrados da espuma da qual são feitos os ursinhos carinhosos reais. É tragédia, comédia, delírio, surto e indigência cognitiva, tudo misturado e ao mesmo tempo.

NORDESTINO - Sobrepondo-se ao vaivém da bunda do hétero, cis, branco, normativo, pula uma cena da dona de um restaurante em Miami fazendo um escarcéu customizado pelo tik tok. Uma mulher grandona e falando espanhol desanca o Da Vinci dos emergentes brasileiros, Romero Britto, e, heresia das heresias, “ruma” no chão, como se diz na Bahia, uma peça do artista pernambucano, caríssima, como tudo que ele faz. Corre todo mundo da treta do sexo&merenda no Rio de Janeiro para o barraco em Miami. Uns apontam para a grosseria e a arte de mau gosto de Romero, que teria maltratado funcionários do restaurante da moça. Outros apontam a falta de educação da americana.

Jornalistas fazem textão: é racismo, é xenofobia. É uma americana escrota achando que no Brasil se fala espanhol, esse absurdo, humilhando um nordestino, onde já se viu... Sim, os americanos não sabem a diferença entre Buenos Aires e Brasília ou Rio de Janeiro, entre a língua portuguesa e o espanhol, mas discriminam nordestinos de Pernambuco, é óbvio. A cena era de 2017, foi ressuscitada pela ascensão do TikTok, mas o barulho tolinho de quem ama ou odeia Romero foi de agora.

E enquanto o país se prostra protestando e politizando uma tragédia pré-bíblica envolvendo abuso, estupro, gravidez e aborto, com um tio de 33 anos de um lado, e, do outro, uma sobrinha de 10, numa trama com dimensões morais, religiosas, médicas, jurídicas e ideológicas, uma novela retrô digital estreia na imprensa de Salvador. Uma moça branca, cis, hétero, mega qualificada, rica, globe-trotter, incensada por estrelas do Judiciário/Direito baiano e que se autodenomina “jurista, parecerista e mentora de carreira” é denunciada como fake e plágio, da graduação ao pós-doc. Os 200 mil seguidores da moça entram em ebulição e as vogais que lutem, entre a mentora e a mentira do currículo ficcional.

 

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