Segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O que acontece na infância não fica na infância 

Não é possível que pessoas adultas não tenham consciência da violência que, a pretexto de denunciá-la em comportamentos de seus ex-parceiros, acabam cometendo contra quem não tem condição de defender-se 

O que acontece na infância não fica na infância 

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 23 de dezembro de 2021 às 12:02

Ver pais e mães separados expondo seus filhos na imprensa e nas redes sociais, principalmente crianças pequenas, não difere muito de nos depararmos na rua com país ou mães batendo fisicamente em crianças e pouco poder fazer. Aliás, uma criança agredida por um familiar no meio da rua talvez esteja menos vulnerável, pois dificilmente as pessoas ao redor não tomarão imediatamente alguma providência.

Nos últimos dias, duas famílias - pai e mãe separados e que refizeram suas vidas com outros parceiros - expuseram filhos pequenos nas redes e na imprensa, numa acusação, primeiro de sequestro, feita pela mãe, contra o pai. Depois evoluiu para uma contra-acusação, desta vez de maus tratos, feita pelo pai, contra a mãe e o padrasto. Quem tem razão? A justiça que avalie, julgue e aja para proteger as crianças o quanto antes. 

Enquanto isso não acontece, as arquibancadas das redes já deram suas sentenças, ajudando a disseminar as imagens das crianças e, achando pouco, marcando jornalistas em comentários, espalhando gasolina sobre as versões, seja a do pai ou a da mãe, espalhadas irresponsavelmente sem levar em conta as marcas que ficarão disso nas únicas vítimas  indefesas dessa história: as crianças. O que leva uma mãe ou um pai expor em redes sociais imagens de seus filhos, prints de conversas de celular deles? 

Não é possível que pessoas adultas, e estamos falando aqui de famílias de classe média, não de pessoas na linha da pobreza e sem acesso a um mínimo de informação sobre fronteiras legais, éticas e morais, não tenham consciência da violência que, a pretexto de denunciá-la em comportamentos de seus ex-parceiros, acabam cometendo contra quem não tem condição de defender-se. 

ÁLBUM TRÁGICO DE FAMÍLIA 

Criança vai para a escola, tem amigos que, supostamente, dada a ordem natural das coisas, são muito mais imaturos que seus pais, e basta ultrapassar um passinho a linha que romantiza o comportamento infantil para lembrar o quanto as crianças são perversas. Somemos a isso a permanência desse lixo todo que os pais espalham nas redes quando num processo virulento de separações mal resolvidas. Independentemente de quem obtiver na justiça o direito de cuidar majoritariamente desses filhos, fragmentos nada agradáveis da biografias deles estarão irremediavelmente na nuvem, acessível a quem quer que busque. São fotos, diálogos, diagnósticos médicos, resultados de exames e conversas sobre conflitos. Depois vê-se tanto jovem atormentado e a explicação para isso é depositada nos games, na cultura ou na influência dos amigos. Olhar-se no espelho, cadê que? 

Mesmo quando se tornarem adultas, essas crianças hoje no olho do furacão por responsabilidade de pai e mãe, carregarão essas versões públicas horríveis do que quer que seja que lhes tenham feito. Essas histórias estarão irremediavelmente inscritas na esfera pública, não apenas no trágico álbum de família que todo mundo tem na dimensão da vida privada. Não é na imprensa nem em redes sociais que se disputa guarda de filho, e expô-los diz muito sobre o caráter de quem faz. E também do caráter de quem se coloca no lugar de juiz de vara de família e vomita soluções para a vida dos outros. 
  

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

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