Segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Um dia na vida: caos, festa e férias

Este ano, não bastasse pandemia, cepa nova de vírus e surto de gripe, a natureza deu de ombros e, na Bahia, derramou mililitros d’água, destruindo a vida de milhares, a economia e a infra-estrutura de municípios inteiros

Um dia na vida: caos, festa e férias

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 30 de dezembro de 2021 às 09:39

O segundo verão, o segundo réveillon e o início do ano três dentro da pandemia embaralham ainda mais a ideia de retrospectiva experimentada nos finais de ano, quando prevalece uma atmosfera de que há uma grande festa, cheia de gente feliz, em algum lugar, e cada um não se sabe exatamente onde. Como na canção de Marina Lima: eu espero acontecimentos/mas quando anoitece/é festa em outro apartamento. 

A Bahia, principalmente nos paraísos litorâneos que vão do baixo sul ao extremo sul, há muito se tornou refúgio e cenário de festas de fim de ano hypadas, protagonizadas pelo PIB de São Paulo e estreladas por ricos, famosos e aspirantes às duas coisas de todas as regiões do Brasil. Este ano, não bastasse pandemia, cepa nova de vírus e surto de gripe, a natureza deu de ombros e, na Bahia, derramou mililitros d’água, destruindo a vida de milhares, a economia e a infra-estrutura de municípios inteiros. Pontes, estradas, barreiras, ruas, tudo virou rio de lama. Noticia-se na última semana do ano mais de 20 mortos, 136 municípios em estado de emergência, 417 cidades atingidas, cerca de 34 mil desabrigados e 43 mil desalojados. 

Há 32 anos não se via chuvas dessa magnitude na Bahia, e continua a chover em muitos dos lugares onde tragédias já aconteceram. É coisa de dimensão extraordinária, do nível que prefeituras pouco ou nada podem fazer sem o braço mais poderoso e capitalizado do Governo do Estado e do Governo Federal. Esses são os fatos postos e o volume de dinheiro para remediar a situação de um jeito que faça diferença na vida de quem perdeu tudo não será pequeno. Saindo-se das cenas de destruição que todos temos visto diariamente, paira a esquizofrenia da simultaneidade da vida, aqui não como crítica, mas da condição inexorável da existência humana. 

As redes sociais, o melhor entre todos os observatórios para esse tipo de comparação, exibem uma vertigem de informações, imagens, números e atmosferas que dão a qualquer tentativa de montar uma retrospectiva de 2021 um enquadramento de documentário. Em cada atualização de feed rolam cenas políticas, trágicas, cult, dissonantes, espetaculares, alegres e tristes. Saudades da ideia de Eduardo Coutinho (1933 - 2014), o melhor documentarista brasileiro para muita gente, de juntar num filme frames e cenas capturadas desordenada e aleatoriamente da televisão aberta brasileira durante 24 horas de um dia normal, comum.


Um pênis é um crepe 

Um dia na vida (2010) é só isso e tudo aquilo: o looping de um país, sem legenda, desenhado só com cenas que vão ao ar todos os dias na televisão, do beijo de amor romântico na telenovela, ao corpo crivado de balas em alguma periferia violenta, ao pastor glossolálico vendendo indulgência e salvação no tele-evangelismo (antes do pix), à modelo deslumbrante na passarela fashion, às palafitas, aos jatinhos e às mansões olimpianas em algum metro quadrado milionário do país. 

O documentário de Coutinho se repete todos os dias, de novo e de novo, mas agora não só na TV. Está na palma da mão, no celular de todo mundo, no YouTube, no WhatsApp, no Instagram e em qualquer lugar. Os feeds, se vistos sob o olhar de Coutinho, são não só iguais a “Um dia na vida”. São também a metáfora perfeita desse convite coletivo dos finais de ano. Fazer retrospetivas, estabelecer pactos internos ou anunciados de que todo mundo vai ser mais feliz, outros planos, coisas melhores, tudo novo. E como síntese, a sentença: tudo muda para permanecer igual. 

As cenas de um dia na vida brasileiras sobrepõem Bolsonaro de férias sobre as águas do litoral de Santa Catarina, milionários de São Paulo, do Rio e influencers dando a receita do sucesso (‘sucesso é a expansão progressiva da felicidade’), imagens aéreas ou de bem de perto mostrando cidades submersas e pessoas e animais afogando-se, doação de mantimentos, influencers sensualizando em publiposts peças de grife em Trancoso, uma creperia em Fortaleza apontada como case de sucesso extraordinário por descobrir que tudo o que as pessoas querem é comprar e comer um crepe em formato de vagina ou pênis nomeados de xibata 16cm e xibiu. 2022 chegou. Feliz ano novo.

Um dia na vida: caos, festa e férias - Metro 1