55 filhos e 30 tiros

Confira a coluna de Malu Fonte no Jornal da Metrópole nesta semana

[55 filhos e 30 tiros]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 27 de Agosto de 2020 ⋅ 08:05

Um casal de pastores com 55 filhos e um detalhe que, para fazer sentido, talvez exija um desenho: o marido, o pastor Anderson do Carmo, 42 anos, executado com 30 tiros na garagem de uma de suas casas, em Niterói, em junho do ano passado, já fora ‘filho afetivo’ e genro da própria mulher, Flordelis dos Santos, 59 anos, deputada federal e acusada de mandar executá-lo. No crime, teve ajuda de parte da coleção de filhos adotivos e biológicos, sete deles agora presos. Além de uma neta. A pastora, estrela gospel e deputada conheceu Anderson quando ele tinha 14 anos e ela 30, e três filhos, do primeiro casamento. 

O enredo é confuso e envolve caridade, uma igreja neopentecostal criada pelos dois, muito dinheiro, orgias, disputa por preferência e poder entre os 55 filhos afetivos, socioafetivos, biológicos e adotados, envenenamento, sexo entre irmãos, rituais religiosos e casas de swing. Embora Flordelis nunca tenha adotado Anderson, o incluiu na família como filho afetivo, na condição de ainda namorado da filha biológica, e contra a família do então garoto, lá em 1991.

Fora dos limites sexuais e da fogueira de ódios circulares na casa da família, cuja arquitetura era organizada para abrigar os filhos obedecendo a critérios de hierarquia definidos pela intensidade dos afetos, o caso Flordelis x Anderson escancara aspectos que deveriam ser do interesse de todo mundo: o uso de crianças, jovens e adultos vulneráveis, por pobreza, doença ou drogas, por gente esperta que usa essas pessoas como trampolim eleitoral. Tem gente que escolhe gatos e cachorros, sem metáforas, para conquistar mandatos, e tem quem escolha crianças, abra creche como se abre brechó e faça disso uma escada para ali na frente sair catando votos. Entre os candidatos a vereador nas eleições deste ano, veja quantos currículos parecidos não há em cada partido.

E como criança abandonada, bicho na rua e dependentes químicos já estão desamparados mesmo, qualquer benemérito que apareça prometendo uma arca para salvá-los já merece um mandato. A gente fica achando que essas pessoas excluídas das coisas mínimas da vida precisam desses salvadores para sobreviver. Precisam, de qualquer coisa que apareça, mas esses tipos é que sobrevivem do desespero dos desamparados. Ganham dinheiro, prestígio, blindagem e frequentemente mandatos.

A doação de Flordelis às criancinhas lhe rendeu foi coisa em 3 décadas. Até um filme, um docudrama estrelado por globais, em 2009. Todos os atores abriram mãos dos cachês. A doação da imagem e do trabalho era coisa nobre. Gerar dinheiro com a arrecadação na bilheteria para comprar uma casa para a missionária e suas cinco dezenas de crianças e jovens catados para o projeto político.

DIVÓRCIO E DEUS - Tudo parece piada pronta, embora seja tragédia. A igreja dos dois começou se chamando Ministério de Flordelis. Recentemente, depois de a missionária com mandato armar os filhos e mandar um deles atirar 30 vezes, depois de 6 meses de tentativa frustrada diária de envenenamento com cianeto e arsênico em pequenas doses na comida de Anderson, mudaram o nome para algo mais apropriado: Comunidade Evangélica Cidade do Fogo.

Mas o suco de Brasil nem está no crime, mas na hipocrisia religiosa e na impossibilidade de prender a missionária polimãe e matriarca de uma organização criminosa familiar. Há registros, nas investigações, de Flordelis dizendo a um dos 55 filhos que era preciso fazer qualquer coisa para dar fim ao marido, afinal divórcio estava fora de cogitação: ‘Fazer o quê? Separar dele não posso, porque senão ia escandalizar o nome de Deus’. Viva a hipocrisia. Executar um homem com 30 tiros escandaliza menos o nome de Deus que o divórcio. E viva o foro privilegiado dos parlamentares brasileiros. A acusada não pôde ser presa ao ser indiciada porque os 170 mil votos conquistados com a hipocrisia lhe deram imunidade parlamentar.

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