Segunda-feira, 16 de maio de 2022

Sobre cobras, minissaias e sorvetes

A compaixão pela cobra é um escárnio às sessões de tortura sofridas por Míriam na década de 70, quando ficou presa, acusada de subversão, grávida, durante três meses. Nas sessões de tortura, uma jiboia era colocada ao lado dela, como mais um elemento de agressão

Sobre cobras, minissaias e sorvetes

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes  no dia 07 de abril de 2022 às 09:24

O nível de descolamento das pessoas da realidade, ou o grau da insanidade nacional, pôde ser medido nos últimos dias, nas redes sociais, pela natureza de dois temas que alavancaram discussões acirradas. Um grupo de autoridades públicas fazendo ironia maledicente com uma jornalista que, quando jovem, foi torturada, grávida, durante a ditadura militar, e um grupo de ativistas do Twitter acusando uma menina e sua família de escravagistas que açoitavam escravos negros, tão somente porque ela fez uma postagem da imagem de cinco potes de sorvete de uma marca cara legendada com uma informação pueril.

Em resumo, o post logo problematizado como tradução da moça rica, branca, descendente de escravagistas que açoitavam bisavôs negros de alguém hoje nas redes sociais dizia isso, embora em uma frase que originalmente era bem mais curta que está: eu precisava comer algo gelado e frio, por alguma necessidade de saúde, e meu pai comprou sorvete para mim. Foi o suficiente para um tsunami de problematizações. De um lado posts atacando a moça. De outro, pessoas defendendo-a e problematizando a problematização. Como assim? De qual quarto reino da natureza surgiu essa turba incapaz de ler uma frase do tipo “meu pai comprou um sorvete” sem instalar uma inquisição digital para condenar ao cancelando quem tem dinheiro suficiente para comprar um sorvete, sob a acusação de ignorar a fome do mundo? 

E no fluxo, com ou sem ironia, veio uma manada problematizando os gatilhos emocionais que potencialmente podem ser disparados por um post como esse. Em quem é órfão e nunca teve um pai. Em quem foi abandonado pelo pai na infância. Em quem teve uma mãe que fez alienação parental lá na infância e afastou o pai. Em quem tem alguma doença do tipo que impede desde sempre a ingestão de açúcar, de leite, de glúten. Bem-vindos ao mundo surrealista de 2022 e parabéns aos utópicos que enxergavam nas redes exclusivamente o potencial democrático e informativo. Elas iriam fortalecer a democracia e impedir que os ditadores, os sujos e os malvados de oprimir, violentar e calar. 

Simultaneamente à problematização do sorvete e à emergência da premissa segundo a qual quem compra um sorvete que custa acima de determinado valor cai automaticamente na vala de descendente de senhor de escravos, vem o quê, quem? Quem poderia ser, senão a prole da Presidência da República, com mais um absurdo aplaudido pelas viúvas virulentas da ditadura? Eduardo Bolsonaro não gostou de um texto escrito pela jornalista Míriam Leitão, falando da polarização da campanha eleitoral e diagnosticando o fracasso da terceira via como decorrente da incapacidade de diferenciar Lula de Bolsonaro. Para Míriam, a essência da diferença entre ambos é o fato de Bolsonaro ser um inimigo da democracia. Reativo e virulento, o filho do presidente, referindo-se e respondendo ao texto dela, usou o emoji de uma cobra e escreveu que sentia pena da cobra.

A compaixão pela cobra é um escárnio às sessões de tortura sofridas por Míriam na década de 70, quando ficou presa, acusada de subversão, grávida, durante três meses. Nas sessões de tortura, uma jiboia era colocada ao lado dela, como mais um elemento de agressão. Na postagem, portanto, Eduardo faz apologia da tortura e situa a cobra numa condição de sofrimento superior à de uma mulher grávida sendo torturada pelo estado brasileiro. Em qualquer lugar do mundo onde direitos são respeitados, um parlamentar não teria uma atitude dessa natureza sem punição.   

MINISSAIA E ESTUPRO


O resumo da ópera é tosco e abjeto. É desaconselhável comprar sorvete para filhos, sob o risco de ser automaticamente apontado como um ato de remanescência de escravizadores brancos do passado, açoitadores de negros. Paradoxalmente, é dada a uma autoridade da República a prerrogativa de celebrar o estado que tortura e fazer disso razão de escárnio contra uma jornalista, por escrever o óbvio numa coluna de opinião. 

E um detalhe revelador de que o ódio é democrático e está à esquerda e à direita. Não foram dois ou três lulistas patológicos que escreveram em algum lugar textos inspirados na tese da minissaia que justifica o estupro: ô, quem mandou, Míriam Leitão escrever no passado recente tantos textos críticos ao PT. Portanto, que mal há em dizer que é bem feito que o bolsonarismo ache pouco, bom e doce que ela tenha sido torturada e que, entre ela e a cobra, escolham a cobra para defender? Entre os inquisidores do sorvete e os defensores da cobra, estejam de que lado estiverem, há mais semelhanças que diferenças. Só muda a idade da turba.
 

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