Segunda-feira, 16 de maio de 2022

Sai a arte, entra o tiro

Governo federal esvazia políticas públicas de fomento à arte e cultura; verbas são utilizadas em evento que incentiva o consumo de armas de fogo

Sai a arte, entra o tiro

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 21 de abril de 2022 às 10:01

Em qual país do mundo onde a arte, a cultura, a música, o cinema e a indústria cultural são potências econômicas e não há investimentos do estado, diretos, ou indiretos, através de incentivos fiscais, via iniciativa privada? O tal do complexo de vira-lata, volta e meia aplicado aos brasileiros, metamorfoseia-se em várias formas. As mais comuns são os ohs e os ahs de deslumbramento dos viajantes brasileiros diante dos hábitos culturais dos estrangeiros. Ah, porque na Europa… Ah, porque nos Estados Unidos…

Aqui, aqui é o arranjo, o cacete armado, o improviso, o elogio ao armengue. E quem quiser que se vire, que o estado não é vaca leiteira nem teta para alimentar a arte e a cultura. Ou alimentar de arte e de cultura quem não nasceu herdeiro e não pode produzi-las ou consumi-las com recursos próprios. Políticas públicas para as artes? Onde já se viu, financiar parasitas, como passaram a ser considerados os artistas, com qualquer recurso público? 

Quantas pessoas não têm a menor ideia do que sejam políticas públicas de fomento à cultura, não têm a menor ideia do que significam e de como funcionam mecanismos de renúncia fiscal como a Lei Rouanet e passaram a repetir, nos últimos quatro anos, como papagaios sequelados e monotemáticos, que atores, atrizes, cantores e cantoras, dramaturgos, humoristas, artistas plásticos, são todos vagabundos que passaram suas vidas mamando nas tetas do estado, através dessa lei? 

Com a chegada do bolsonarismo ao poder, automaticamente todo e qualquer artista que não tenha se alistado nas fileiras de apoiadores foi automaticamente transformado em objeto de ódio. De Fernanda Montenegro aos novos talentos que, em muitos casos, nunca sequer submeteriam um edital para concorrer a alguma seleção de financiamento com renúncia fiscal. Em que momento os grandes artistas brasileiros foram convertidos em aproveitadores vulgares, caçadores de migalhas fiscais? De ídolos, muitos foram reduzidos a párias. Com a ajuda de pares, como Regina Duarte, metamorfoseada num espantalho grotesco urrando no poder público. Ou arremedos de atores, como Mário Frias, o secretário freak de cultura que foi a uma bienal internacional de artes homenagear Lina Bo Bardi sem saber quem era ela. 

A máscara do show de horrores em que se transformou o Brasil oficial foi arrancada de vez na última terça-feira, quando circulou em sites, redes sociais e na imprensa um vídeo real, de teor inacreditável. Nas imagens, o até bem pouco tempo secretário nacional de Incentivo e Fomento à Cultura, André Porciúncula, responsável por analisar e aprovar propostas da Lei Rouanet, faz uma promessa insólita a uma plateia sedenta por armas. Sim, armas: revólveres, pistolas, armas de fogo. 

ARMAS E PUTREFAÇÃO

“Pela primeira vez, vamos colocar dinheiro da Rouanet em eventos de arma de fogo, vai ser super bacana isso”. O tal anuncia que o governo vai usar, da Cultura, R$ 1,2 bilhão para dois megaeventos voltados para criadores de conteúdo - em redes sociais, documentários, YouTube - sobre armas de fogo, estimulando o consumo pró-armas. “Estamos lançando agora, de linha audiovisual, que vocês podem usar para fazer documentários, filmes, webséries, podcasts, para quê? Para trazer a pauta do armamento dentro de um discurso do imaginário. Trazer filmes sobre o armamento, da importância do armamento para a civilização, a importância do armamento para garantir a liberdade humana”.

Se você lê isso e conhece alguém que considera tudo isso normal, está na hora de fazer seleção natural das pessoas com as quais você se relaciona ou divide uma mesa de bar ou de restaurante. O Brasil não está doente. Está em estado adiantado de putrefação. E fiquem com essa informação para fechar o nariz:  “o projeto do livro "Armas & Defesa: A História das Armas no Brasil" foi autorizado a captar R$ 421 mil e já arrecadou R$ 336 mil da Taurus, fabricante nacional de armas de fogo com sede no Rio Grande do Sul”. Sim, são recursos da Lei Rouanet.

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