Segunda-feira, 16 de maio de 2022

O dono do mundo

Como se isso fosse coisa pouca, Musk é ainda o dono da Space X, uma empresa, digamos, com uma ambição capaz de mover a engrenagem do mundo real e da ficção: conquistar o espaço sideral e levar gente muito rica para fazer turismo espacial

O dono do mundo

Foto: Reprodução - Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 28 de abril de 2022 às 09:02

Na cena clássica de O Grande Ditador (Estados Unidos, 1940), a caricatura magistral do Hitler de Charles Chaplin pede para ficar sozinho no gabinete e vai divertir-se usando o mundo, o planeta, o globo terrestre. Atira-o para o ar num balé sinistro, como se manipulasse a terra e como se esta fosse um balão de ar passível de explosão a uma ponta de alfinete. Chuta o mundo inflável com o qual diverte-se, como se fosse uma bola, a bola metafórica dos ditadores e das crianças absolutistas desde pequenininhas a quem aplicamos o epíteto de o dono da bola. 

O balé ditatorial dO Grande Ditador foi, há 30 anos, referência para a abertura da novela O Dono do Mundo, de Gilberto Braga, na Rede Globo, estrelada por Antônio Fagundes, que fazia um protagonista sem caráter. As referências às imagens do filme e da abertura da novela estão aparecendo nesse texto por conta da onipresença, nos últimos anos, e principalmente nas últimas horas, do trilionário Elon Musk em tudo o que é plataforma de mídia. Até no gentílico Musk é hiperbólico: sul-africano-canadense, naturalizado norte-americano (naturalizado estadunidense, corrigirão os ‘wokes’). 

Sob qualquer perspectiva da qual se olhe para Musk, ele já era um dono do mundo, não no sentido do ditador caricaturizado por Chaplin em sua comédia trágica para representar Adolf Hitler e Benito Mussolini. Mas no sentido de superpoderoso, ultrarrico, essa categoria de acumuladores de riquezas dos quais nem mesmo a imprensa do mundo e as ciências sociais falam com clareza suficiente para traduzi-los. Com a compra do Twitter, por mais de 40 bilhões de dólares, a expressão dono do mundo aplicada a Musk adquire um sentido quase literal. Os universos em que ele operava ampliaram-se, e ganha um tour por Marte e Júpiter quem apresentar argumentos que derrubem a tese de que o dono da Tesla é o dono das questões mais importantes da civilização tal qual a concebemos hoje. É.

Parece ser consenso que nenhuma questão é mais importante para a vida no planeta - e não só a vida humana - que a questão ambiental, chamemos-na de meio ambiente ou environment e apliquemos o conceito a efeito estufa, epidemias ou à onda empresarial da vez, a febre da tríade ESG, a ISO 9000 de 2022. Pois bem, a fortuna, a fama e a aura de entidade de Musk vêm exatamente do seu lugar de player fundamental quando se trata de projetos do mundo contemporâneo para o meio ambiente. O que ele vende: carros elétricos, sustentáveis, que vão salvar o mundo, vão lavar a imagens dos ricos que não querem a fama de poluidores, vão consertar o ar que o mundo respira etc, etc. 

Uma van na Via Láctea

Como se isso fosse coisa pouca, Musk é ainda o dono da Space X, uma empresa, digamos, com uma ambição capaz de mover a engrenagem do mundo real e da ficção: conquistar o espaço sideral e levar gente muito rica para fazer turismo espacial. Os mortais das periferias do mundo rico sonham com as ilhas gregas? Os clientes em potencial de Musk não apenas sonham, mas já planejam, e podem pagar por isso, passar a lua de mel em Marte ou ver o parto dos filhos no meio da imensidão desconhecida fora da terra, olhando-a a milhares de anos luz de distância, a bordo de um foguete da Space X.

E aqui já seria mais do que suficiente para essa entidade humana ultrarrica dominar o mundo. Já tem os carros sustentáveis e já tem os foguetes que logo se tornarão naves para colonizar o espaço. Colonizar o espaço sideral, levar gente numa van para passear na Via Láctea é paradoxal demais diante da vida real dos comuns: os wokes matando-se uns aos outros no “tuírer” para decolonizar as ideias de arte e de cultura impostas pelo tal do europeu-eurocêntrico branco, macho, hétero e cis. O pós-europeu ultrarrico vai lá e compra a fatia do mundo que lhe dá a sensação de que, agora sim, é dono real da p* toda. Uma rede social para chamar de sua. Comprou-a, não falta mais nada. Afinal, que graça tem ser dono do mundo e não ter uma praça privativa, em que as regras são dadas por ele? É lá que (e não só o seu) o mundo será narrado segundo seu próprio story-telling. 

E vejamos como as coisas mudam de repente e as águas ficam ainda mais turvas. A tal da civilização ocidental brigou zilhões de anos para conquistar o que chama de liberdade de expressão. Vêm a pós-verdade, os fatos alternativos, nublaram-se as fronteiras entre verdade, mentira, notícia, desinformação. O homem mais rico do mundo compra uma rede social e diz que o fez para ampliar, palavras dele, o potencial de liberdade de expressão, até hoje, de novo segundo ele, não explorado pelo Twitter. E isso, essa promessa, a de ampliação do free speech deixou em pânico quem? Os libertários e os defensores da… liberdade de expressão. Desistamos de entender o mundo. Estar vivo já é demasiado complexo e suficiente para justificar a minha e a sua existência. O resto, os donos do mundo vão decidir. À nossa revelia.

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