Segunda-feira, 04 de julho de 2022

Por que choras, sertanejo?

Cachês milionários, reiteradamente pagos, agora e durante anos, por prefeituras do interior do país a cantores sertanejos estão no centro do noticiário desta semana

Por que choras, sertanejo?

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 02 de junho de 2022 às 09:40

Uma tatuagem anal acaba de entrar para os anais da política brasileira. Não é trocadilho nem frase de efeito. Em fevereiro de 2021, a cantora Anitta compartilhou em seu perfil no OnlyFans uma imagem em que aparecia de quatro, numa cena em que ela mesma anunciava como sendo a da feitura de uma tatuagem no ânus. Na época, o lacre da
cantora, como todos, circulou por todos os feeds de perfis de fofoca, até ser sucedido por mais outro e outro, intercalando estripulias sexuais, extravagâncias financeiras e trocas de farpas entre ela, a família Bolsonaro e os bolsonaristas.

Agora, na última semana de maio, a já esquecida tatuagem anal de Anitta voltou a ser assunto. O jornalismo mais pudico está chamando-a de tatuagem íntima ou de tatuagem em local inusitado do corpo (?). Os haters chamam de tatuagem no toba e ela mesma chamou de tatuagem no tororó. A tatoo insólita veio agora nas manchetes, com muito barulho e desdobramentos políticos, econômicos e culturais.

A pretexto de glorificar moralmente os bolsonaristas, usando Anitta como bode expiatório e, na mesma frase, reiterando o coro do presidente, atacando os artistas que lhe fazem oposição e condenando a Lei Rouanet, o sertanejo Zé Neto, da dupla Cristiano e Zé Neto, durante um show na cidade de Sorriso, no Mato Grosso, saiu-se com essa: “Nós somos artistas que não dependemos de Lei Rouanet. Nosso cachê quem paga é o povo. A gente não precisa fazer tatuagem no ‘toba’ para mostrar se a gente está bem ou mal”. 

Deu-se mal, abrindo uma caixa de Pandora no universo sertanejo e revelando seus cachês milionários, reiteradamente pagos, agora e durante anos, por prefeituras do interior do país. Achando que estava se defendendo e à sua turma anti-Rouanet, ao dizer “nosso cachê quem paga é o povo”, Zé Neto estava, como agora se vê, praticamente auto-denunciando os sertanejos. A imprensa foi atrás e a polarização das redes sociais deu o empurrão final. São centenas de prefeituras, de municípios minúsculos, com pequenas populações,receitas mínimas, usando dinheiro público vindo de verbas federais e deslocadas para pagar cachês que ultrapassam 800 mil reais e, não raro, chegam a mais de um milhão e duzentos mil, como é o caso de Gusttavo Lima, um dos primeiros expostos.

MAMILO DE FORA 

Após quatro anos sendo tratada como a Geni da canção de Chico Buarque, a classe artística brasileira, não apenas a do segmento da música, vem experimentando nos últimos dias uma sensação parecida com a de justiçamento involuntário. Atacada, acusada de mamateira, de corrupta e corruptora, por captar de forma legal recursos para projetos, vê agora os sertanejos, um após outro, todos desde sempre afinados com Bolsonaro e aferrados às pautas conservadoras, agonizarem sob exposeds em série. Gusttavo Lima, por ter seus cachês e contratos milionários com prefeituras expostos e questionados, tirou a camisa e, de mamilo de fora, foi chorar nas redes sociais, fazendo o injustiçado, o pobre menino bilionário que ganha seu honesto dinheirinho, etc e tal, dizendo que não aguenta mais e está a um triz de jogar a toalha. Devem ser aquelas toalhas excêntricas que os artistas deslumbrados pedem às equipes de produção para camarins e hotéis.

O choro é livre, sertanejos. Mas, antes dele, recordar é viver: os outros artistas, os humilhados e ofendidos todos os dias nas redes pela artilharia virtual da bala e do boi, foram provocados, xingados, tiveram relacionamentos e famílias expostos e nem assim foram vistos chorando, ocupados que estavam em respirar, insistir, resistir. Imoral não é captar recursos da Lei Rouanet com empresas privadas para fazer shows e espetáculos. Já receber de prefeitos espertalhões dinheiro público que deveria ir para a educação e a saúde e acaba usado para financiar shows e deixar gente com mandado ficar bem na fita… Como se chama isso? E a cara nem arde.
 

Por que choras, sertanejo? - Metro 1