A carne, a Bic e a comunista

Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[A carne, a Bic e a comunista ]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 10 de Setembro de 2020 ⋅ 09:48

Eram pouco mais de 7h da manhã de terça-feira quando um caminhão, carregado com 25 toneladas de grandes peças de carne bovina, tombou em uma rodovia nas imediações de Itapecerica da Serra, região da Grande São Paulo. Como se do nada, surgiram centenas de pessoas, muitas descendo dos carros que seguiam pela rodovia na hora do acidente, para arrancar da carroceria baú do caminhão pedaços gigantescos de boi, peças que os saqueadores mal podiam carregar nas costas. 

Entre o acidente e os poucos minutos que a Polícia Militar levou para chegar ao local, segundo as emissoras de TV que sobrevoavam ao vivo o saque, foram levadas cerca de sete toneladas da carga. Comentaristas de televisão ficaram horas do dia fazendo elucubrações sobre o comportamento das pessoas. Buscavam respostas para perguntas que dois neurônios respondem num segundo. Em que momento os brasileiros se tornaram esse exército de saqueadores de carga? Onde foram parar os princípios do povo? 

Na verdade, o que parecia incomodar mais os articulistas da TV posicionados ao lado de suas orquídeas domésticas era o fato de pessoas com recursos o suficiente para ter um carro pararem para colocar o quadril fresco de um boi no porta-malas. A coisa era mais um desconforto de classe do que espanto com o saque. Era difícil explicar à audiência que pagar IPVA de um Honda Civic e saquear carne sangrando após um acidente não são coisas excludentes. Enquanto a GloboNews e a CNN Brasil estranhavam a aglomeração dos carnívoros no fundo do caminhão, em algum supermercado brasileiro pessoas davam entrevistas dizendo que o reajustes da ordem de 30% em itens básicos como carne, arroz, leite, açúcar, pão, cebola e farinha de trigo os deixam sem saber o que fazer para contornar o abastecimento da casa.

Se a vida no Brasil fosse um documentário, essas cenas seriam sobrepostas com uma boa edição. Enquanto pobres e classe média saqueiam carne, o presidente da República, que ameaça com porrada jornalista que lhe faz perguntas, recebe numa reunião ministerial uma digital influencer e youtuber de 10 anos, Esther Castilho. Na reunião, a menina, incensada pelos sertanejos da música e já frequentadora anterior dos salões presidenciais, pergunta quando o arroz vai baixar de preço. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tira o presidente da reta e coloca resposta na conta do divino: “Se Deus quiser, vamos ter uma supersafra no ano que vem”. Se Deus quiser. E se o Brasil não vender toda a safra para a China, que está comprando tudo.

CANETA - O povo pede ao presidente Bolsonaro para intervir no preço dos itens da cesta básica, que saiu do nível do aceitável. O presidente apela para o patriotismo dos donos de supermercado, que culpam os produtores, que preferem vender para o mercado internacional, com o dólar nas alturas. Nesse cenário, o presidente fecha questão: “Não vou usar a caneta Bic para nada, não vou tabelar nada”. 

Corta para o Congresso Nacional. Perderam a graça os memes que dizem que o Brasil não é para amadores. Nem para pós-graduados, mesmo porque a maioria desses é fake, de ministro da educação a falsa jurista de província. Nenhum extra-terrestre nos compreenderia, como povo. Os comentaristas de TV não entendem por que alguém saqueia um caminhão de carne. Ingênuo, um nutricionista explica que consumir carne saqueada pode causar danos à saúde. Mas taí algo que ninguém nem tenta explicar: por que uma deputada comunista, do PC do B, queridinha da esquerda (Jandira Feghali), vota a favor de um projeto de lei que tirará do país coisa pra mais de um bilhão de reais para beneficiar pastores evangélicos, donos de impérios religiosos, políticos e midiáticos? Alguém aí ouviu falar em guerra ideológica? Onde? Tudo é possível sob o céu do Brasil. 
 

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