Segunda-feira, 04 de julho de 2022

Quando Luiz Gonzaga tocava lá em casa no São João

Minha mãe se esmerava em fazer bolo, pipoca, canjica, a gente encerava o chão (...) e o som comia solto na radiola

Quando Luiz Gonzaga tocava lá em casa no São João

Foto: Reprodução - Jornal da Metropole

Por: James Martins no dia 23 de junho de 2022 às 09:01

A celeuma em torno dos cachês dos sertanejos, relativa aos shows deste São João, me lembrou que houve um tempo em que eu nem desconfiava que alguém fizesse show em pleno São João. Sim, durante toda a minha infância esta festa se deu de forma plenamente vicinal, comunitária, com as atrações principais sendo nós mesmos. Numa hora dessas o cheiro do amendoim cozido já teria tomado conta de toda a Rua do Curuzu, exalando de cada casa. Minha mãe se esmerava em fazer bolo, pipoca, canjica, a gente encerava o chão, trocava-se a toalha da mesa, alguém cortava o queijo de cuia, e o som comia solto na radiola: ♩“Eu quero ver pega-pega no salão / É forró a noite inteira / É noite de São João”♫. De noite as fogueiras se acendiam e davam brasa pra folia dos fogos: traques, bombas, chuvinhas de prata, cobrinhas elétricas, foguetinho, busca-pé e um vasto sortimento vindo de Santo Antônio de Jesus, que meu pai trazia num saco marrom inesquecível. Se fosse em ano de Copa do Mundo, duas graças se misturavam. Para mim, a apoteose aconteceu em 1994: Brasil Campeão depois de um São João delicioso, incluindo aqueles 3 x 0 sobre Camarões bem no dia 24 de junho.

Como eu já disse, a atração éramos nós mesmos, incluindo a vizinhança. Casa de Miralva, de dona Iaiá, de Jaci, casa de Trem, de dona Lé. E todos lá em casa. São João, ninguém pensava em palco, em cachê, em festival onde a música nem sequer é sempre junina. Uma festa de casa. E de casa em casa. Era gostoso. Disso, sim, sinto saudades. Às vezes passava um samba duro e nos arrastava em cortejo. Mas, mesmo ele, o samba, fazia questão de visitar as casas. Laranja à farta. Licor de jenipapo. Naquele tempo tinha até balão e gente brincando de balão-beijo. Se alguém decidisse fazer um show naquele dia e dependesse de nós, ficaria vazio. Era noite de São João. Luiz Gonzaga tocando dentro de casa. Bastava ligar a radiola. Uma vez soltei uma bomba dentro da casa de Patinha. Quase matei o homem de susto. Mas foi sem querer. Daquele São João eu sinto saudades. Uma espécie de saudade de mim.

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