Que horas as escolas voltam?

Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Que horas as escolas voltam? ]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 17 de Setembro de 2020 ⋅ 09:06

Em março, quando o ano letivo brasileiro estava mal começando, veio o anúncio da Organização Mundial de Saúde de que o mundo estava sob uma pandemia. As escolas começaram a fechar as portas. O governo falava em gripezinha e as instituições de ensino que insistiram em se manter abertas na terceira semana de março se viram vazias. Antes mesmo dos decretos municipais e estaduais determinando o fechamento de tudo, pais e mães já haviam decidido não mandar os filhos para a escola.

Seis meses depois, o mundo anuncia os tais protocolos para a volta do funcionamento das coisas. Restrições, cuidados, mudanças e novo normal são palavras obrigatórias do vocabulário de todo dia. Mas e as escolas? O que fazer com elas? Governos, autoridades da educação, famílias, sindicatos de professores, diretores de estabelecimentos, funcionários, donos de escolas particulares, secretarias municipais e estaduais e o Ministério da Educação batem cabeça e não se chega perto de um consenso. Da perspectiva dos estudantes, principalmente das escolas públicas, 2020 é um ano perdido?

Em uma matéria de 11 minutos no Fantástico - no telejornalismo isso é uma eternidade - um dos entrevistados resumiu a agonia do setor: “há protocolo para tudo. Tem protocolo para abrir salão de beleza, para abrir academia, para shopping. Mas não tem protocolo para abrir escola. A gente está dizendo que, no Brasil, a escola é a última prioridade”. 

Do lado de quem é contra a abertura, sejam famílias, autoridades sanitárias ou professores, o argumento varia pouco em torno da tese de anos de que o tempo perdido na escola e no ensino é recuperável. A vida não é. E haja contestação. A pergunta que se faz, nesse caso, é se familiares, professores, funcionários das escolas e os próprios alunos estão dentro de casa ou se já estão circulando por outros espaços, exceto nas escolas. 

PÂNICO - Nas escolas públicas das periferias, os pais e as mães há muito já voltaram ao trabalho (muitos nunca puderam ficar em casa) e os apelos e os relatos das famílias enviados em grupos de WhatsApp para diretores de escola são de cortar o coração. Choro, apelos, histórias de crianças pequenas que travaram, deprimiram, vivem em pânico, entre o desejo de voltar para a escola e o pavor de saírem de casa, com medo de tudo. Sem acesso a instituições de saúde mental, mães e avós imploram para a escola reabrir, para ver se a criança reage, se muda o comportamento, se melhora. 

Professores, comovidos com os relatos, garantem: para as crianças da periferia não há, num contexto desses e a essa altura, lugar mais agradável e seguro que a escola. Com protocolos, que seja. Menos vezes por semana, com rodízio, mas é preciso começar a voltar. E engana-se quem pensa que crianças de classe média também não sentem pânico e terror, depois de tanto tempo de isolamento em casa e de distância dos colegas, dos professores, da escola. Não é só de educação que se está falando, mas de uma etapa fundamental da vida, de socialização, de ludicidade. 

Alguns estados, como São Paulo e Amazonas, já começaram a voltar, embora de modo bem diferente do que eram. Em outros, como o Rio de Janeiro, o dissenso das partes envolvidas já virou batalha judicial. Sindicatos e escolas brigam, estudantes esperam. É por conta do vírus, todo mundo sabe, mas, em alguns aspectos, foram, serão, meses irrecuperáveis, na formação, no conhecimento e na rotina das crianças. Nos discursos e argumentos de quem discorda da reabertura, com protocolos, o que fica subliminar, e à vezes explícito, é que aulas presenciais somente após a vacina. É tempo demais para uma criança. Nem a gente sabe quanto é. Ah! Na periferia não tem tablet.
 

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