Segunda-feira, 08 de agosto de 2022

Cabeça de galinha em pó

Os restos agora estão nas prateleiras dos supermercados, disfarçados

Cabeça de galinha em pó

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 28 de julho de 2022 às 10:17

O combo formado pela inflação, pelo desemprego, pelo empobrecimento da população, pela baixa oferta de alguns gêneros alimentícios em função da alta do dólar ascendendo a exportação e da guerra na Ucrânia reduzindo importações, tem feito aparecer, tanto nas grandes redes atacadistas de supermercados quanto nos mercadinhos de esquinas, armadilhas da indústria alimentícia para confundir o consumidor. Para oferecer produtos com preços mais baixos e, simultaneamente, manter as mesmas margens de lucro, em um país cuja população, exceto os ricos, estão com a renda corroída pela inflação, as marcas têm colocado em prática arapucas para atrair os desavisados.

Nos últimos meses, têm se multiplicado nas prateleiras vários produtos estranhos, cujo adjetivo qualificador mais apropriado seria desonestos. Leite que não é leite, manteiga que não é manteiga, óleo que não é óleo, suco de fruta que nem é suco nem é de fruta. Tudo colocado lado a lado dos produtos reais, digamos, e com preços um pouco abaixo destes. Entre duas aparentes manteigas com embalagens muito parecidas, uma alguns reais mais barata, o consumidor tende, naturalmente, a colocar na cesta ou no carrinho a de preço mais baixo. Sem saber, está levando para casa e pagando proporcionalmente bem caro por isso, uma gororoba híbrida, uma invenção que nem é manteiga nem margarina e em cujo rótulo, de modo bem disfarçado, aparece: ‘alimento à base de manteiga e creme vegetal com sal’. O fenômeno, com as devidas adaptações, está ocorrendo com uma série de produtos, todos com valor nutritivo precário, se é que não se pode chamar de produtos fraudados. Quem lê aquelas letras miúdas, as informações técnicas indecifráveis para leigos, e reproduzidas nas embalagens com as mesmas cores das logomarcas?

SOBRAS DE QUEIJO

Nas latas e nos pacotes de leite, por exemplo, mesmo quando se trata de marcas mais caras, ao invés da identificação de leite, está lá, escrito com todo o disfarce gráfico do mundo, para ninguém prestar atenção: ‘composto lácteo com fibras’, no mesmo lugar onde até ontem se lia “leite integral/instantâneo em pó”. O mesmo está acontecendo com leite condensado e creme de leite. Em caixinhas mimetizadas de creme de leite, está escrito: ‘mistura uht de creme de leite com soro de leite’. Nesses casos específicos, esse soro é um composto resultante de sobras da fabricação de queijos, iogurtes e dos produtos lácteos integrais, agora bem mais caros. 

Na prática, a indústria alimentícia está se adaptando à lógica dos ossos de boi, das carcaças e dos pés e cabeças de frango. Imprestáveis para o consumo e descartáveis para a indústria, o que antes era descarte, hoje é disputado pelos mais pobres para dar sabor à comida, para funcionar como mistura, nome dado a qualquer resquício de proteína nas refeições de quem passa fome. Os resíduos da indústria de sucos, de laticínios, de achocolatados e afins foram ‘ressignificados’ pelas marcas, como já vinha acontecendo com o arroz e o feijão partidos. Os restos agora estão nas prateleiras dos supermercados, disfarçados em embalagens para atrair quem precisa economizar cada real. Enganada, muita gente acaba levando para casa pasta base de margarina misturada com o soro do leite descartado dos bons queijos, acreditando que está comprando uma manteiga baratinha. O composto lácteo é o equivalente à cabeça de galinha pasteurizada, em pó.
 

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