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Jesus na urna e cristofobia

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Jesus na urna e cristofobia ]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 24 de Setembro de 2020 ⋅ 08:30

No discurso de abertura da solenidade pelos 75 anos da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro disse muitas coisas esquisitas. Duas delas especialmente esquisitas aos ouvidos dos estrangeiros: quem toca fogo na floresta amazônica são os índios e os caboclos, em seus roçados, de há muito já queimados, para garantir a própria sobrevivência. A outra pérola, impossível de aplicar-se a um país só, mas foi: o Brasil é um país cristão e conservador, mas ele próprio, presidente deste país, sofre de cristofobia. 

A primeira barreira lógica é destrinchar o fio que leva o presidente a anunciar ao mundo que deixamos, oficialmente, de ser um país laico para nos tornarmos um país cristão conservador. Somos uma teocracia? Segundo quem? E se somos, paradoxalmente, como pode o líder da nação sofrer preconceito por ser cristão? Façam as contas. Quantos deputados federais e senadores cristãos, aqui como sinônimo generalizado de evangélicos, estão hoje exercendo mandato no Congresso Nacional, legislando em nome de seus fiéis e de seus templos? 

Na ponta da língua, só ministro de estados pastores, nesse país de cristofóbicos, há três: Damares Alves, da Cidadania e Direitos Humanos, com poderes ou privilégios capazes de conduzir Jesus Cristo a um galho de goiabeira, Milton Ribeiro, da Educação, e André Mendonça, da Justiça. E não temos motivos para duvidar: o Supremo Tribunal Federal logo terá o seu ministro terrivelmente evangélico. Esse é um desejo e uma promessa do presidente da República. No Congresso Nacional há uma espécie de vaca na sala: o perdão de dívidas das igrejas evangélicas que orbitam em torno de cifras de um bilhão de reais.

No Rio de Janeiro, o prefeito é um bispo de um império religioso. O agora ex-governador, já deposto, Wilson Witzel foi eleito há menos de dois anos com os votos dos fiéis carreados pelo pastor Everaldo, agora preso, cujas fotos batizando o presidente da República em um rio em Israel estão a um click do Google. Em
Salvador, inclusive com o apoio do PT, há entre os candidatos à Prefeitura um pastor, que tem um mandato no Congresso. Nem precisa ir mais longe que isso em exemplos. Onde está a cristofobia anunciada na ONU? 

EMBRIAGUEZ - Nas próximas eleições, como nas próximas e nas próximas, milhões de votos serão confirmados na urna em nome de Jesus, usado para coisa que Deus duvida. Não viram Flordelis? O poder de Jesus nesse movimento de tirar gente dos tempos e elevar a mandatos e cargos políticos é tamanho que recentemente o abuso de poder eleitoral por parte dos pastores foi tema de discussão no Tribunal Superior Eleitoral. Há livro sobre o assunto, do promotor Peterson Barbosa. Para ele, os pastores “causam embriaguez litúrgica”.

Nos Estados Unidos, o equivalente de lá à Receita Federal daqui proíbe organizações religiosas de apoiar ou se opor a chapas eleitorais. A opção é esta: já que não pagam impostos têm que se abster de lançar candidatos dos ou em seus templos. Aqui, é essa festa divina. E ainda há queixa de cristofobia em organismos internacionais. Que há intolerância e preconceito religioso no país, ninguém duvida e há provas, jurídicas. As rés são exatamente as igrejas evangélicas, e as vítimas, as religiões de matriz africana. Nem as labaredas fazem as caras arderem por aqui.

 

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