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O calouro do Supremo

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[O calouro do Supremo]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 08 de Outubro de 2020 ⋅ 09:06

O primeiro integrante do Supremo Tribunal Federal indicado por Jair Bolsonaro, Kássio Marques, já chamado ironicamente de Kássio com K, conseguiu um feito e tanto. Dormiu desconhecido e acordou nacionalmente famoso, objeto de manchete de tudo quanto é veículo de imprensa e alvo de críticas, insatisfações e queixas das mais antagônicas. Do campo jurídico ao núcleo religioso do governo, os evangélicos, e até dos extremistas e terraplanistas do núcleo bolsolavista, os apoiadores do presidente guiados pelo filosófico e guru Olavo de Carvalho. 

O desembargador é do Piauí e atualmente é membro do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, indicado por Dilma Rousseff. Daí o fato de ser considerado petista pelos bolsonaristas que rejeitam sua indicação. Há algum tempo, Kássio Marques vinha se movimentando nos bastidores do alto escalão do Poder Judiciário para obter a próxima vaga aberta no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Foi surpreendido com o apadrinhamento do presidente para um posto infinitamente superior. Foi como se estivesse jogando para contrato em um time regional e, de repente, recebesse um convite para ser titular, até a aposentadoria, da seleção brasileira. A metáfora soa meio até frágil depois do antológico 7 a 1. 

Dizem que nem o próprio Kássio acreditou quando soube. Achou que Bolsonaro tivesse confundido as letras das siglas, trocando STJ por STF, numa confusão momentânea. Mas não. A indicação era mesmo para o topo do Olimpo do judiciário brasileiro. Melhor que loteria. Entra aos 48 anos no Supremo e fica até os 70 e tantos, já estabelecendo uma antítese temporal. Sai Celso de Mello, o decano da Corte, 74 anos, 31 deles na Casa, indicado pelo então presidente José Sarney, e entra o calouro. Sai a memória de três décadas da Suprema Corte, um currículo pleno de jurisprudências. 

Desde então, o desembargador virou uma espécie de chaveirinho do presidente. É carregado a tiracolo pra lá e pra cá, para adentrar as principais salas de estar e jantar das mansões da República, numa fusão de Executivo, Legislativo e Judiciário. Se alguém nos contasse há uns 3 meses que as cenas de agora aconteceriam, protagonizadas por Bolsonaro, não havia erro: era coisa de vidente fracassada ou de roteirista do inverossímil. Quem até pouco tempo incentivava e acolhia extremistas que queriam tocar fogo no STF, agora abraça os ministros em suas casas. 

A indicação de Kassio deu um nó no sistema operacional do bolsonarismo ideológico, de Sarah Winter a Silas Malafaia, agora furiosos com o presidente. Já do lado dos padrinhos, o desembargador do Piauí está até bem na fita, para quem acabou de chegar e sem pegar fila. Tem o carinho até do presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, um crítico contumaz do presidente. A bancada da Bíblia, os malafaietes, está pistola porque queria para ontem a indicação do tal ministro terrivelmente evangélico, prometido por Bolsonaro lá atrás e reprometido agora, para acalmar o rebanho das igrejas. 

CURRÍCULO - Especula-se, no entanto, que a mesma lógica que levou Bolsonaro a se encantar por Kássio Marques vai acabar por dissuadi-lo de querer ter alguém usando oração na abertura das sessões laicas do Supremo. Afinal, o que têm os radicais religiosos a oferecer ao governo, a essa altura, que o centrão, o STF, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre já não estejam garantindo? Quem se importa com o choro livre de pastores, sarahs e janaínas quando se tem Gilmar, Toffoli e Ciro Nogueira em um acordão, com Supremo, com tudo? 

Enquanto uns dizem que foi o centrão que apresentou Kássio Marques a Bolsonaro, outros acusam de ter sido o filho Flávio e o advogado esquisitão, Fred Wassef. O novo ministro deve herdar de Celso de Mello os processos que decidirão o futuro judicial da família Bolsonaro. Já os que passam pano mais mornos dizem que a razão é mais óbvia e menos venenosa: é só para fazer um aceno ao Nordeste, uma região majoritariamente hostil ao presidente na eleição de 2018.  Desde a aposentadoria do sergipano Carlos Ayres Britto, não há um ministro nordestino no STF. E há sempre a terceira hipótese: esse governo não pode ver uma autoridade com algum deslize no currículo - plágio, curso fictício - que quer logo dar um cargo importante. 

 

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