
Campo Grande: cidade, metrô e carnaval
O que se espera do metrô para efeito de estímulo à habitação e ao comércio no bairro? Qual o impacto das desapropriações anunciadas? Será o metrô um mero alimentador para mais eventos e trios elétricos?

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Bairro tradicional de Salvador, o Campo Grande destaca-se pela presença de equipamentos públicos, monumentos históricos e boa oferta de serviços. Ocupado durante o século XIX, demarcou a expansão do centro tradicional ao sul através da Avenida Sete. Caracteriza-se por uma heterogênea ocupação e uso do solo, bem como por sua função como ponto de articulação viária e pulmão do centro. No caso da Praça Dois de Julho, destaca-se o belo trabalho de desenho urbano realizado pelas arquitetas-paisagistas Arilda e Dange Cardoso (2003), que deve ser preservado e cuidado. A região é também notabilizada por sediar o Circuito Osmar do carnaval soteropolitano.
Há questões sobre o bairro, no entanto, que considero demandarem mais amplo debate público. Neste início de 2026, acompanho a montagem da infraestrutura do carnaval. O Largo já está parcialmente interditado e os passeios inviabilizados com antecipação de quarenta dias. Serão cerca de dois meses de interdições bastante autoritárias e improvisadas, e um rastro posterior de danos diversos.
O impacto do Carnaval no bairro vai mais longe, pois acaba por funcionar como uma espécie de licença prévia para muitos eventos que fogem do controle e da compatibilidade com princípios razoáveis da convivência democrática, atentando contra os direitos dos moradores e a qualidade do ambiente urbano, inclusive com poluição sonora e trânsito indiscriminado de trios elétricos durante o ano.
Do outro lado, noticia-se a chegada do metrô, sem mais amplo conhecimento público sobre o planejamento envolvido. Grande parte das notícias destacam apenas que o investimento será útil ao carnaval ou que suas obras não vão atrapalhar a festa.
Em 2014 estive em Seattle (EUA) numa missão acadêmica. Fiquei impressionado com a presença de placas espalhadas pela cidade intituladas “notice of proposed land use action” ou “aviso de ação proposta de uso do solo”. Os anúncios trazem descrição das propostas de alteração urbanística previstas para o local, etapas de aprovação, canais para consultas e sugestões e outras informações relevantes.
O que se espera do metrô para efeito de estímulo à habitação e ao comércio no bairro? Qual o impacto das desapropriações anunciadas, em áreas onde resistem instituições e uso comercial de porte e poder aquisitivo médio, em edifícios históricos? Será o metrô um mero alimentador para mais eventos e trios elétricos?
Tal como em cidades estrangeiras ou em bairros populares de Salvador, que por galhardia de suas comunidades desenvolveram junto ao poder público mínimos princípios metodológicos de mobilização e participação, será importante que os responsáveis pelas diversas intervenções escutem os moradores da região e demais interessados, sem distinção.
Objetiva-se, assim, que trabalhem por resultados benéficos das transformações urbanas, sejam estas efêmeras ou permanentes.
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