
Uma vitória do bom jornalismo
Decisão da Justiça Federal que anula leilão de área verde no metro quadrado mais cobiçado da capital coroa o esforço da imprensa que se nega a virar armazém de secos e molhados

Foto: Divulgação
Conhecido pela acidez no uso das palavras e dos traços, o humorista Millôr Fernandes cunhou uma máxima que sintetiza com perfeição o mais importante papel do jornalismo, o de fiscal do poder: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Em livre tradução da mensagem subliminar contida no aforisma, significa que, quando relega a função de vigiar excessos, desvios e distorções de quem ocupa cargo eletivo ou gere a máquina pública, a imprensa se torna algo muito próximo de um empreendimento comercial.
Fiscalizar erros e atropelos à legalidade daqueles que estão aboletados no andar de cima do Poder Público é um propósito do qual o Grupo Metropole nunca colocou em segundo plano e nem pretende colocar. Ao longo de décadas, pegar no pé de quem faz besteira é mais que um slogan. É um princípio constantemente exercido, seja através das ondas do rádio, do jornal impresso semanal, do portal e das mídias sociais. Pode-se amá-lo ou odiá-lo, mas a opção depende do que você andou fazendo.
Um exemplo recente reforça a importância de não transformar o jornalismo em armazém de produtos baratos. Mais precisamente a decisão da Justiça Federal que mandou anular o leilão de uma área verde de proteção permanente localizada na encosta do Corredor da Vitória. Terreno esse que a prefeitura de Salvador pretendia vender a investidores alinhados à especulação imobiliária que há anos destrói coisas belas na borda da Baía de Todos os Santos, sob a alegação de que grandes empreendimentos enchem os cofres públicos de dinheiro a ser aplicado na cidade.
As centenas de milhares de ouvintes e leitores dos veículos do Grupo Metropole testemunharam a cruzada lançada contra esse disparate desde o início de 2024, ainda que causasse engasgos nos interessados em levar o projeto a cabo a qualquer custo - sobretudo, ambiental - ou fosse alvo de críticas de quem entende a cidade com a cabeça de quem vende secos e molhados. Nada contra missão igualmente nobre, mas a tarefa da imprensa deve passar longe do mero interesse pecuniário.
É bem provável que a sanha em abocanhar o terreno da Vitória tivesse sucesso sem a vigilância irreversível feita pela nossa equipe de repórteres, articulistas e colunistas e o combate tenaz do apresentador Mário Kertész, que além de liderar o grupo de comunicação fundado por ele, acumula a experiência de quem administrou Salvador por duas vezes. Portanto, entende muito do riscado para se deixar levar por conversas moles ou recuar diante de críticas feitas para embaralhar joio e trigo.
O freio de arrumação imposto judicialmente contra o leilão coroa, sem sombra de dúvida, o papel da imprensa satirizado através da língua afiada de Millôr. Não custa lembrar que o mesmo empenho em fiscalizar os atos do poder levou a conquistas semelhantes da mesma seara. Caso da encosta do Morro Ipiranga, que também entrou no pacotaço de terrenos públicos colocados à venda pela prefeitura nos últimos dois anos, por meio de projetos de lei aprovados sem o devido debate e alheio ao que preconiza a legislação urbanística e ambiental.
Como a boa imprensa também não deve ter lado, ainda mais se for político, esforço semelhante foi feito em relação aos espaços abandonados pelo governo do estado. Lista do qual fazem parte o Solar Boa Vista, o Museu de Ciência e Tecnologia, o Parque de Pituaçu e o antigo Centro de Convenções, entre muitos outros. E engana-se quem pensa que o jornalismo da Metropole vai largar o osso de quem nos governa.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.

