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Luz, câmera e memória

Ao passar o trator sobre casebres e casarões com piscina na área que é hoje o Jardim dos Namorados, o então prefeito ACM moldou o futuro da capital sob a lógica da especulação imobiliária

Foto: Reprodução/Jornal Metropole
Na manhã de 29 de novembro de 1967, em Salvador, a ordem parecia pequena: derrubar dez casas erguidas em terreno público, à beira-mar, onde depois surgiria o Jardim dos Namorados.
Dez. Era o que autorizara a Justiça. Um gesto técnico, limitado. Mas a história já corria por fora do papel.
O Brasil vivia sob o impacto do golpe de 1964. A cidade deixava de ser negociada e passava a ser organizada. E organizar, naquele tempo, significava escolher.
Na Bahia, essa escolha tinha comando: Antônio Carlos Magalhães.
O Bico de Ferro não era um erro urbano simples. Era um pedaço vivo da cidade. Havia barracos, mas também casas sólidas, algumas com piscina. Gente que acreditava ter chegado para ficar.
A decisão judicial falava em dez casas. ACM viu outra coisa.
Viu um problema inteiro. Mandou derrubar tudo.
Na Procuradoria, Cleriston Andrade entendeu imediatamente. A Justiça autorizara dez. O que se faria era outra coisa. Ele tremeu. Mas era a ditadura — e, naquele tempo, entre a lei e o poder, não havia dúvida sobre quem prevalecia.
Os tratores chegaram sem aviso suficiente. O dia começou comum e terminou irreconhecível.
As pessoas saíam como podiam. Geladeiras nas costas, colchões arrastados, vidas desmontadas às pressas. Não eram apenas barracos. Casas bem construídas também vieram abaixo.
Ali, duas cidades se encontraram: a vivida e a decidida. A segunda venceu.
O que aconteceu não foi um episódio isolado. Foi um sinal.
No ano seguinte, a Lei Municipal 2.181 daria forma ao processo. Autorizaria a venda das terras públicas e consolidaria uma nova lógica: a cidade como mercado.
Quem podia comprar, ficava. Quem não podia, saía.
A lei não falava do Bico de Ferro, mas nascia dele. O que o trator fez com ruído, ela organizou em silêncio.
Os efeitos vieram rápidos. Áreas valorizadas passaram a ser ocupadas por quem tinha capital. E os outros foram empurrados para longe — para o início das periferias modernas.
Era mais do que urbanismo. Era ideologia. Viva e usada até hoje na cidade agora transformada na capital das incorporações e áreas públicas vendidas.
A Justiça autorizara dez demolições. O poder decidiu pelo fim.
E naquele 29 de novembro de 1967, Salvador já tinha sido decidida.
O que ficou não foi a lei. Foi o som do trator.
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