
Samba, esse baiano descarado
A verdade é que todas as modalidades de samba que existem, e são muitas, vêm da chula. Do semba, do giro em torno do umbigo das mulheres de Santo Amaro, Cachoeira e região

Foto: Reprodução Jornal Metropole
"O samba nasceu aqui", é o tema do Carnaval de Salvador 2026. Sim, além de Deus ser brasileiro, o ritmo que se desdobrou em diversas linguagens musicais e tornou-se a alma sonora do país é de uma origem ainda mais específica: baiano desde pequenininho. E ainda mais especificamente: natural do Recôncavo baiano, cuja capital é a capital do estado.
Pois a verdade é que todas as modalidades de samba que existem (e são muitas), do partido alto ao samba-canção, do samba-enredo ao samba-reggae, passando pelo pagodão, tudo vem da chula. Do semba, do giro em torno do umbigo das mulheres de Santo Amaro, Cachoeira e região.
Curiosamente, essas afirmações parecem querer desmentir o motivo da própria celebração, pois o tema foi escolhido tendo em vista as comemorações de supostos 110 anos de samba - que, por sua vez, têm por marco a gravação de "Pelo Telefone", de autoria de Donga e Mauro de Almeida, em 1916.
E, sendo assim, o samba não teria nascido realmente aqui, mas no Rio de Janeiro. Porém, as controvérsias são tantas! Já existiriam sambas gravados antes e, principalmente, "Pelo Telefone" não seria sequer um samba, mas um notável maxixe, que a discussão se embola de uma forma que nem vale a pena debater.
Só nos resta deixar a teoria de lado e dar uma umbigada na outra. "O samba nasceu aqui", repete o refrão, ou melhor, o tema, e isso até mesmo os cariocas reconhecem ao estabelecer a ala das baianas como primeira e obrigatória em todas as suas suntuosas escolas de samba. É um tributo, um reconhecimento de primazia da terra que gerou as famosas tias, dentre as quais Ciata é a mais conhecida.
Naquele tempo, fazer samba era atividade clandestina. Hoje é moda, hype e tema de carnaval. O que indica evolução sociocultural do país e, paradoxalmente, não resolve algumas questões primárias ligadas à questão racial, por exemplo. Não por acaso, o samba, esse baiano descarado, é muitas vezes usado como sinônimo de Brasil, em suas dores e delícias.
"O samba é pai do prazer, o samba é filho da dor", definiu um ilustre santamarense. Dizem que o respeito pelo ritmo começou a se impor depois que Tia Ciata curou a ferida no pé do presidente Wenceslau Brás. Talvez por isso se diga também que quem não gosta do dito cujo, bom sujeito não é. O resto da frase vocês completam.
"O samba é a tristeza que balança. E a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não", disse Vinícius de Moraes. Não por acaso o dito cujo é usado como sinônimo de Brasil. E não por acaso o samba nasceu na Bahia, terra de furtar e de foder.
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