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O bom-senso cancelado

Dormir seria desnudar-se da consciência e, amar, despir-se do medo

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Mais que um triângulo amoroso helênico, o Sono, o Desejo e o Amor se entrelaçam nas divindades mitológicas de Hipnos, Eros e Afrodite, respectivamente, partilhando os mesmos lençóis e travesseiros em nossas camas.
Hipnos nos cobre com suas asas embriagantes de sono, Eros acende a flamejante fogueira do desejo, enquanto Afrodite, sensual e lasciva, observa a dança dos dois ao disputarem, no mesmo corpo, o sono que quer se render e o desejo que logo quer ser consumido. Mas sempre haverá quem adormeça no meio do beijo ou quem desperte no meio do sono.
Dormir seria desnudar-se da consciência e, amar, despir-se do medo. Nas noites em que o corpo ainda não sabe se quer amar ou dormir, os toques e alguns suspiros dividem uma fronteira sutil e frágil, balançando entre Hipnos e Eros, bafejados por Afrodite, para quem o gozo e o descanso seriam irmãos separados, mas filhos da mesma divindade — a entrega.
Quem dorme bem sabe amar, quem ama bem sabe dormir e quem faz ambos, já de há muito percebeu que o Paraíso é um quarto em penumbra, onde o corpo se curva e o tempo se dissolve na bruma.
Francisco Hora é especialista em Pneumologia e Medicina do Sono (Associação Médica Brasileira), Doutor em Medicina (Universidade Federal de São Paulo). Membro Titular da Academia de Medicina da Bahia e Professor Aposentado da FAMEB (Universidade Federal da Bahia).
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