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Samba, esse baiano descarado

Em tempos de tensões ideológicas, sabia ouvir antes de responder. Exercia a política como arte do equilíbrio, jamais como espetáculo

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Era um domingo em Salvador, e na casa de número discreto da Pituba, a mesa se punha como quem convoca um parlamento da inteligência. No centro, Rosalvo Barbosa Romeo — figura ereta, elegante, de fala pausada e afetuosa — sabia que política e cultura, amizade e palavra, não são domínios separados, mas fios entrelaçados na urdidura do convívio humano.
Nascido em 23 de janeiro de 1920, filho de Antonio Giovanbattista Romeo, imigrante italiano de Rotonda, na Basilicata, e de Flora Barbosa Romeo, descendente de portugueses, Rosalvo cresceu entre o rigor europeu e a sensibilidade tropical. Essa dupla herança moldaria sua personalidade: disciplina e cortesia, método e delicadeza.
Formou-se em 1943 pela tradicional Faculdade de Direito da Bahia (hoje Ufba), mas desde cedo compreendeu que o direito mais nobre era o da convivência civilizada.
Ingressou na vida pública ainda jovem. Foi vereador, deputado estadual por três mandatos, presidente da Assembleia Legislativa da Bahia e vice-governador do Estado em 1994. Serviu à vida pública com compostura, firmeza e respeito à Constituição e aos seus pares. Sua presença era sóbria; sua oratória, refinada — capaz de evocar William Shakespeare ou Rui Barbosa com a mesma naturalidade com que citava um provérbio napolitano herdado do pai.
Era homem de pontes. Em tempos de tensões ideológicas, sabia ouvir antes de responder. Exercia a política como arte do equilíbrio, jamais como espetáculo. Não buscava o brilho fácil, mas a construção paciente. Era daqueles que preferem a influência discreta à aclamação ruidosa.
Mas foi fora dos palanques e tribunas que Rosalvo inscreveu seu nome nos corações de tantos. Aos domingos, sua casa tornava-se um refúgio da cultura. Entre pratos bem servidos e vinhos discretos, intelectuais, artistas e políticos trocavam ideias e afeto.
Ali estavam Glauber Rocha, José Gorender, Florisvaldo Mattos, Calasans Neto, James Amado, Paulo Gil Soares, Ariovaldo Matos, João Batista de Lima e Silva, Wilter Santiago, Zitelmann de Oliva, Wálter da Silveira, Mário Kertész e tantos outros cujas ideias ajudaram a moldar a Bahia contemporânea. Naquela sala, divergências não eram trincheiras — eram estímulos.
Rosalvo tinha também coração de menestrel. Era apaixonado por música — das óperas italianas às modinhas brasileiras — e falava dela com a mesma emoção com que comentava um texto constitucional ou um verso bem talhado.
Seus amigos gostavam de ouvi-lo discorrer sobre os mais variados assuntos: cinema, literatura, história, filosofia, política internacional ou memórias da velha Salvador. Havia nele uma rara combinação de erudição e leveza, que transformava qualquer conversa em experiência memorável.
Amava o cinema como quem respeita um altar de imagens. Amava os livros como quem lê para viver mais de uma vida. Amava os amigos como quem cultiva árvores: com tempo, raízes e sombra. Tinha o dom raro da escuta verdadeira e a elegância de jamais constranger o outro.
Faleceu em 27 de janeiro de 1999, aos 79 anos, mas permanece vivo na memória afetiva de Salvador. Escolas, logradouros e um anexo da Assembleia Legislativa levam seu nome. Mas o que levam, sobretudo, é o exemplo — de fidalguia, cultura, elegância e lealdade.
Rosalvo não foi apenas um homem público. Foi um homem raro: desses que transformam o cotidiano em diálogo, o poder em ponte, a amizade em herança — e a política, quando exercida com espírito e humanidade, em verdadeira civilização.
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