
Memória, esquecimento e invenção do Brasil contemporâneo
O Agente Secreto é o retrato de um Brasil que nunca soube fazer um ajuste de contas com a Ditadura Militar

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Os dois Globos de Ouro para Agente Secreto consagram o que há de melhor no cinema brasileiro. Para além de uma excelente história que fala diretamente à alma do nosso país, Agente Secreto é uma obra excepcional do ponto de vista técnico e artístico. Tudo parece perfeito, a direção de arte, cenário, figurino, elenco. Wagner Moura está soberbo fazendo dois personagens completamente distintos. Para qualquer pessoa que tenha mais de 50 anos, é como estar caminhando pelas ruas do nosso passado na vividez das suas cores.
Eu queria destacar cinco pontos.
Em primeiro lugar, há um horizonte moral onde a história se desenrola. Logo nas primeiras cenas, vemos um corpo estendido no chão cru, mais uma pessoa que tombou, fruto da violência que desperta apenas indiferença. Esse corpo assombrará o protagonista. Ele é a própria expressão de um “mal” que contamina todos. Estamos no Regime Militar, mas, ao contrário de Ainda Estou Aqui, esse mal não está encarnado nos militares, no regime. É algo ainda mais grave, como se se tivesse abatido sobre o país um espírito que fomenta, tolera e naturaliza a violência e crueldade. Não são os militares contra os subversivos, o exército contra guerrilheiros, é algo bem mais profundo: o mal toma posse um empresário, de policiais comuns que vivem o cotidiano de uma cidade, o mal espreita a vida pacífica de um professor universitário e fugitivos de uma perseguição sem nome.
O filme nos mostra como, sob as asas da Ditadura, a violência se torna algo comum, quase banal.
O segundo ponto é que a narrativa tem duas temporalidades, os eventos de 1977, no acaso do Regime, e os dias atuais. Nós acompanhamos os eventos nessas duas datas. Porém, numa guinada simplesmente genial, o ponto central da narrativa, aquele que nos revela o nervo dos eventos, as motivações para os personagens, aparece na forma de uma memória remota que, por acaso, cai nas mãos de uma jovem que, por razões que permanecem vagas, transcreve áudios captados em fitas K7 (e agora digitalizados) com registros do que aconteceu em 77. A partir desse ponto, os eventos de 1977 deixam de ser fatos que estamos testemunhando com nossos olhos (como se a câmera tivesse o poder de nos levar ao tempo dos eventos), mas algo que sabemos de segunda mão, pela relato oblíquo das vozes que surgem do passado. Há aqui um truque narrativo maravilhoso. Aqui cinema abdica da onisciência do narrador e assume a fragilidade da memória.
O terceiro ponto que quero destacar é o epílogo do filme. Essa é a parte mais eloquente: já estamos com os dois pés cravados em um presente incerto, 1977 é um artefato da memória, o menino, filho do protagonista, se faz adulto, um médico, mas ele simplesmente ignora tudo o que aconteceu. Ele estava presente e ausente ao mesmo tempo aos eventos de 1977 e agora escolhe, deliberadamente, esquecer, deixar o passado no passado. Ele escolhe a amnésia para poder seguir adiante. Isso é o retrato de um Brasil que nunca soube fazer um ajuste de contas com a Ditadura Militar. É claro que o ele fica com o pen drive que contém os áudios, mas isso compreende o que ficará no indeterminado, o que vai ocorre fora do filme, no porvir, no que nunca ficaremos sabendo, só imaginando.
Por fim, é muito importante destacar tanto Agente Secreto quanto Ainda Estou Aqui (outro laureado com Globo de Outro para Fernanda Torres) recebam toda a atenção do mundo das artes. Com essas duas obras, o mundo passa a conhecer uma das marcas profundas do Brasil que pouco soubemos contar até agora, as memórias da Ditadura Militar. É excepcional de americanos, africanos, europeus, asiáticos saibam que a violência e a brutalidade também compõem a nossa formação contemporânea. Não sou historiadores e, claro, posso ser profundamente impreciso aqui, mas, tudo me leva a crer que a Ditadura Militar inaugura o Brasil contemporâneo. Ela foi o confronto brutal com o Brasil “inventado” nos anos 1950 com a Bossa Nova, o Cinema Novo, Guimarães Rosa, a Copa do Mundo, Maria Esther Bueno, Éder Jofre, Brasília; um projeto de emancipação coletiva interrompido. É claro que a Ditadura não inventou a violência, a corrupção e o degredo moral (temos a história da escravidão que também ainda não foi plenamente explorada), mas ela inventa o tipo de violência, de corrupção política e degredo social que praticamos hoje.
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