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Record: quem fez o quê?

Record: quem fez o quê?

Um monte de gente se ocupou do golpe do pix da Record, mas até agora não temos um lead

Record: quem fez o quê?

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 16 de março de 2023 às 08:08

No jornalismo, ainda está vivo o lead, ou lide, em português. Em síntese, lead/lide é a marca registrada e a impressão digital do texto jornalístico, de natureza informativa. É composto das respostas às seguintes perguntas, logo nos primeiros parágrafos do texto: o quê? quem? onde? quando? por quê? Pode-se acrescentar ainda como e quanto, dependendo do fato e de seu objeto. Todo texto jornalístico, após lido, deve ter respondido essas perguntas, para o leitor, para a audiência. Se não o fizer, não tem eficácia nem eficiência comunicativa. 

No último final de semana, começaram a circular nas redes sociais, em alguns sites e em conversas no WhatsApp, rumores de que jornalistas da TV Itapoan/Rede Record BA teriam articulado um golpe para desviar dinheiro doado pelos telespectadores a pessoas vulneráveis que recorriam ao programa Balanço Geral pedindo ajuda para tratamento médico e cirúrgico, moradia ou outras necessidades. Como nem a emissora nem a direção do programa se referiram diretamente a nenhum profissional específico, com nome, sobrenome e função, mesmo que tenham abordado supostas traições e se referido a bandidos, à justiça divina a à justiça legal, sempre com discursos indiretos, neste texto nomes também não serão citados. Acusar pessoas é coisa para a polícia, para a justiça ou para as vítimas, com provas. O jornalismo justiceiro e moralista vive fazendo isso, mas sempre incorre no risco de cuspir na própria cara. 

Historinha de Pântano

Em tempos de redes sociais, em que um monte de gente adulta briga com namorado, amante ou ficante e vai para as redes exibir indigência cognitiva postando texto cifrado público para mandar recado para uma pessoa específica, não deve ser nenhum pecado digno de juízo final falar de um assunto do qual está todo mundo falando e não citar nomes. A hipocrisia é geral e coletiva. As ameaças de processo, também. Aliás, se o programa, se a emissora, se um monte de gente se ocupou de algum modo do assunto “golpe do pix em programa da Record” e, mesmo assim, até agora ninguém sabe exatamente o que aconteceu, pecado mesmo é essa notícia sofrer de um defeito irreparável: até agora não temos um lead. Quem fez o quê? Quem desviou dinheiro? Como? Quanto? Desde quando? Por quê? Quem foi lesado? Quem sabia? 

Nenhuma resposta. E, pelo jeito, se não houver uma reportagem para futucar essa história de golpe de fora para dentro, parece que continuaremos sem saber as respostas e logo mais nada terá acontecido. Não que não seja apenas mais uma historinha de pântano. Mas como parece que algo real aconteceu, a mãe de uma criança doente (e que morreu) diz não ter recebido um real sequer das doações feitas por meio de um número de pix veiculado na tela da emissora com a segunda maior audiência do país e um jogador de futebol aparece em um vídeo anunciando a doação de 70 mil reais, temos uma reportagem a ser feita, não? 

Como os jornalistas se dizem tão comprometidos com a missão de denunciar os malfeitos do mundo, por que não contar essa história? A pauta está pronta e é pública. Mas só os envolvidos ou quem conhece a engrenagem do caso têm as respostas para preencher a tal pirâmide invertida do jornalismo. A gente também quer saber. Cadê o lead?

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