
Globo, Dalai Lama, Cristandade…
A verdade é que o mundo tal como o conhecemos está se acabando. Dando lugar a outro mundo. Outro fato é que sempre foi assim

Foto: Reprodução
Ao ver, logo no início desta semana, bizarras imagens do Dalai Lama pedindo para uma criança chupar sua língua, lembrei-me de mim mesmo mais jovem, embora não exatamente menino, encantado com sua figura, sua história e seus livros. Num deles aprendi o seguinte conceito tibetano: “Shen dug ngal wa la mi sö pa”, isto é “a incapacidade de suportar a visão do sofrimento do outro”. E deste me lembrei diante do muito visível constrangimento do menino assediado. “Até tu, Dalai Lama?”, meu coração parecia dizer. E, por estranho que possa soar à primeira vista (misturei os dois sentidos -audição e visão- de propósito), o caso me fez pensar também nas demissões recentes da Rede Globo. A associação se deu pelo aparente desmoronar de duas enormes grandezas que parecem levar toda uma ou duas eras em seu rastro. “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa — os quatro se vão / Para onde vai toda idade. / Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?”, escreveu Fernando Pessoa no poema “O Quinto Império”.
A decadência da outrora toda poderosa Rede Globo já tinha sido uma evocação do Império Romano para mim. Tudo cai, diz a inviolável lei da gravidade. Agora foi a vez do Dalai Lama? “Dalai Lama ao caos”, não resisti ao trocadilho quando provocado a comentar o vídeo. A verdade é que o mundo tal como o conhecemos está se acabando. Dando lugar a outro mundo. Outro fato é que sempre foi assim. E, pelo visto até aqui, só assim tudo sobrevive, em movimento constante de vida e morte. “Triste de quem vive em casa, / Contente com o seu lar, / Sem que um sonho, no erguer de asa, / Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar. // Triste de quem é feliz”, assim começa o mesmo poema do mesmo Pessoa. O império que agora se ergue é o da Inteligência Artificial, dos algoritmos, do cardápio digital no restaurante. Até quando?
Naturalmente a gente fica assustada, com medo, com tudo. Contudo, no primeiro poema que escreveu para a “Mensagem”, o poeta arrematou: “E eu vou, e a luz do gládio erguido dá / Em minha face calma. / Cheio de Deus, não temo o que virá, / Pois, venha o que vier, nunca será / Maior do que a minha alma”. Deus e alma podem ser substituídos por outros software, por exemplo, diz Bela Gil.
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