
O caso Eloá, 15 anos depois, nas esquinas
Uma década e meia depois do Caso Eloá, em São Paulo, e um ao vivo na TV local mostra que ou ninguém aprendeu nada com o episódio ou todo mundo já esqueceu

Foto: Reprodução
Primeiras horas da manhã de uma segunda-feira em um dos bairros atualmente mais conflagrados pela ação do tráfico em Salvador, Tancredo Neves. Ou como algum jornalista ou estagiário chegou a escrever e a postar num site de notícias da cidade, para logo depois alguém consertar, Tranquedo Neves. Obviamente não há como ter sido o corretor ou erro de digitação. Quando se lê num site de notícias ‘Tranquedo’ onde deveria se ler Tancredo, o nome de bairro e de uma das lideranças políticas brasileiras que a ninguém que passou por uma universidade é dado o direito de desconhecer, é porque o jornalismo está sobrevivendo sob cuidados paliativos e entubado.
Este texto é sobre a agonia do jornalismo e não sobre a tragédia cotidiana nas ruas do bairro ou sobre o impacto disso na vida dos moradores que não escolheram testemunhar todos os dias a disputa de território entre facções do tráfico e a ação armada da política para combatê-la. Uma década e meia depois do Caso Eloá, em São Paulo, e um ao vivo na TV local mostra que ou ninguém aprendeu nada com o episódio ou todo mundo já esqueceu. Coincidentemente, nessa quarta-feira estava em vários sites estas aspas da apresentadora Sonia Abrão, um ícone do telejornalismo de fofoca, desde quando a internet era tudo mato: [Sonia Abrão relembra cobertura do caso Eloá:] “Faria tudo de novo”.
O problema é que não só ela faria tudo de novo - transmitir um sequestro com refém. O problema é que muita gente, 15 anos lendo e ouvindo que o comportamento jornalístico de Sônia no caso Eloá representou tudo o que não pode ser feito num episódio semelhante, ignora as lições do caso e age de modo quase idêntico. E não é o caso de apontar o dedo para um ou dois profissionais que colocam a cara na TV direto de cena e acabam se tornando peças do teatro real do próprio ato criminoso, engolidos para dentro do sequestro. Se isso acontece é porque toda a lógica de uma emissora, um encadeamento de pessoas com hierarquia para mandar parar ou mandar seguir querem fazer daquele jeito e autorizam. O criminoso, por sua vez, que nunca tem mesmo muita coisa a perder, puxa ‘a imprensa’ para mais perto. Exige.
Pedir Pix
Na segunda-feira um rapaz, desses raquíticos, novinhos e com nome que ninguém lembra mas apontado como o líder da última e curtíssima temporada do comando do tráfico de drogas em uma das muitas comunidades dominadas, segurava pelo pescoço uma menina, sua namorada, de apenas de 16 anos, no bairro de Tancredo Neves. Protegidos com coletes à prova de balas estavam lá repórteres, na cobertura de guerra customizada que domina os telejornais locais. A menina era uma Eloá, 15 anos depois. Jornalistas faziam um cover local de Sonia Abrão mais roots, de fora do estúdio, pé na rua, com mais emoção. O telespectador ficava sabendo em casa, informado pela cobertura de guerra, que o criminoso via na TV o mesmo que a audiência. E com base no que via, ele montava sua estratégia tosca. Ou a imprensa descia (a rua, para chegar à casa onde ele fazia a namorada de refém), ou ele não libertaria a garota. Só faltou pedir pix.
Ah, mas Sônia Abraão é, foi diferente. Ela queria falar com o sequestrador por telefone, agora ninguém mais faz isso, por ter aprendido que isso é errado. Ninguém aprendeu coisa alguma. Agora o próprio criminoso fala com a imprensa por WhatsApp. Na segunda-feira, a mãe da menina, ao vivo, para a audiência e para o sequestrador, lia os pedidos do traficante enviados por WhatsApp. O que mudou foi o suporte usado para a conexão com o criminoso. O resto é tudo muito parecido com Sônia Abrão. Ah, para quem esqueceu: Eloá morreu, assassinada num crime do qual, diz-se, a imprensa, com muitos asteriscos, foi coautora.
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