Sucesso e fracasso enterrados

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Sucesso e fracasso enterrados]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 22 de Outubro de 2020 ⋅ 07:54

“Eu nasci lá onde o vento faz a curva e não tenho nada. Mas vou dar pra vocês o que eu não tive. Estudo”. Maria José Gomes, 49 anos, saiu do interior da Paraíba quando tinha 15 anos, para morar no Rio de Janeiro e trabalhar como empregada doméstica. “Acordar cedo, trabalhar em casa de família”, repetia, chorando e com uma máscara preta, para os repórteres de TV. Maria José fez tudo o que os ricos mandam os pobres fazerem para que os filhos tenham sucesso na vida e um futuro. Coloque na escola, incentive os estudos, estimule o trabalho. Ela fez tudo certo. E mesmo assim deu tudo errado. 

Maria José criou os filhos sozinha, lhes deu casa, proteção, educação. A filha é fonoaudióloga. O filho, Caio Gomes Soares, 23 anos, era estudante de educação física na UERJ e barman, para complementar a renda de casa. Na segunda, 7 da manhã, Maria José já estava na casa de família quando a filha ligou para dizer que Caio estava morto. Instantes antes, no morro da Coroa, no Catumbi, Rio de Janeiro, Caio acordou com barulho de tiros. Levantou da cama para pegar um copo de suco. Um tiro, disparado lá fora e sabe-se lá por quem, atravessou a parede, o guarda-roupa, atingiu a televisão e o peito de Caio.

Caio arrastou-se, baleado. A irmã tentou socorrê-lo, mas não deu. Na chamada fria do jornalismo, o desmonte de três vidas inteiras foi narrado assim: ‘Disparo atingiu Caio Gomes Soares no peito após atravessar armário do quarto. Divisão de Homicídios investiga o caso”. Na burocracia da violência brasileira, deverá ser mais uma bala achada por um alvo humano encontrado no meio do quarto de casa. 

“Ele morreu com um copo de suco na mão. Eu não quero justiça, porque não vai ter. Quantas mães estão agora passando a dor que eu estou passado?” Maria José tá errada? Não se trata de incentivar o crime, desestimular as crianças a estudar, os jovens a irem para a rua sem medo da violência. Mas vejamos o que é morar na favela, ser vizinha dos Gomes e estimular um garoto a estudar para virar gente. Investigar o caso não será outra coisa senão ver o Estado bater boca em páginas e páginas de processos para dizer ou desdizer que a bala que matou Caio saiu do cano da arma de um policial ou se saiu da arma de um traficante. Para Maria José não faz diferença. A única sentença válida é a certeza de que Caio não volta. Vai ter justiça, para ela? Não. 

PRIMEIRA PÁGINA - A mãe disse que faria tudo de novo para investir na educação dos filhos. Os pobres que vivem no meio do tráfico e da milícia fazem de tudo para salvá-los da violência. Outro dia, uma mãe, moradora de um morro carioca, contava na TV uma história de sucesso dessas que parecem saídas da literatura. O filho saíra na primeira página de um jornal carioca. Ela foi até a banca de jornal e queria cinco exemplares, para os parentes. Só havia um exemplar, o último. Ela implorou para que o dono providenciasse mais quatro. O filho estava na capa. O moço se comoveu e lhe deu os pêsames. Mas estava enganado. O garoto da comunidade estava na primeira página por participar de um estudo científico premiado no mundo. “Meu filho estava no jornal pela educação, não como cadáver ou como traficante”, explicava a mãe à repórter.

Maria José também investiu no sucesso do filho. Mas, na loteria das balas achadas do Rio, Caio foi parar na primeira página como o fracasso dos sonhos da família, do Rio e do Estado brasileiro. Com diferença de poucas horas em relação à morte de Caio, Gabriel Ribeiro, 20 anos, neto do sambista Neguinho da Beija-Flor, também morreu com um tiro disparado não se sabe por quem. O garoto, segundo a família, trabalhava com parentes montando toldos para uma festa, em um bairro de Nova Iguaçu. E tudo se repetirá, com mudança, apenas, de nomes.

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