Descaso e fogo, de novo

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Descaso e fogo, de novo ]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 29 de Outubro de 2020 ⋅ 07:38

Dois anos depois de o fogo destruir o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, a cidade viu esta semana, de novo, o que vai se tornando rotineiro, óbvio, até - a destruição de tudo o quanto é público. Terça-feira, às 9h da manhã, os bombeiros eram acionados para apagar um incêndio no maior hospital público do Rio. É um hospital federal, como o Museu Nacional. O hospital de Bonsucesso, lotado de gente, com capacidade para 3.000 internações, estava queimando. Pacientes e servidores deram o nome certo ao fato: o incêndio anunciado. Três pacientes morreram. 

Entre o incêndio do Museu Nacional e o do Hospital de Bonsucesso, parecem já ter entrado no esquecimento as cerca de 20 mortes de pacientes causadas pelo incêndio do Hospital Badim, no Maracanã, no ano passado. Onze morreram no dia da tragédia e 12 alguns dias depois, por consequências indiretas do fogo. As informações sobre o incêndio do Bonsucesso dão conta de coisas inacreditáveis, em se tratando de uma instituição pública e, sobretudo, uma instituição de saúde. Ou é normal ler que um hospital federal que atende milhares de pessoas todo dia não tem, há muitos anos, sequer uma licença do Corpo de Bombeiros para funcionar? 

O código de segurança do Hospital de Bonsucesso é da década de 70. Está tudo errado nos prédios, na infraestrutura e é tudo tão improvisado pelo desgaste que hoje se investe menos no hospital que há 10 anos, quando atendia menos gente e o custo da manutenção era menor. A unidade só não está fechada porque, Brasil, sabe como é: ruim assim? muito pior sem. Onde atender essas pessoas todas que diariamente passam por lá? No mínimo 40 macas, muitas ocupadas por pacientes tirados da UTI, foram abrigadas durante o resgate por uma loja de autopeças vizinha, que tirou, no meio do caos, os carros dos clientes para socorrer funcionários do hospital que chegavam em pânico pedindo ajuda.

CAIXA DOIS - As engrenagens do Brasil estão aí, sempre expostas, fáceis de entender. Todo mundo, no Rio e no país, podia ver os arco-íris de dinheiro e seus potes de ouro cruzando o Rio na era Lula-Dilma, com Copa do Mundo, Olimpíadas, reformas, infraestrutura, pré-sal, Eike Batista, Sérgio Cabral. Vendo, esta semana, a primeira entrevista de João Santana, o marqueteiro dos anos PT, sacudindo a memória da bancada do Roda Viva para lembrar que todo mundo ali, dos dois lados, sabia do percurso do dinheiro entre caixa 2, empreiteiras e governantes, até a Lava-Jato desenhar a trajetória que levaria à cadeia, não há como não puxar um tracinho daquela narrativa até tanto fogo na cidade maravilhosa. 

Durante anos, o Rio cabralino (e o de antes e o de depois, embora numa escala mais atrofiada) massageava os intestinos com dinheiro público e de esquemas. Até a água do vaso sanitário de Cabral era morninha e circulava por tubos de cerâmica especial importada da Polônia. Enquanto o caixa 2 comia milhões que saíam do ralo púbico e entravam em contas privadas, quem ia se importar em gastar umas migalhas, proporcionais, para proteger do fogo um museu que abrigava a história nacional e hospitais que já então eram sucatas, ferro velhos a ameaçar a vida de quem precisa deles? O abandono das coisas públicas era tão concreto que ninguém ia perder tempo, nem centavos, para fazer de conta que estava preocupado com essas abstrações chamadas cultura e povo. 

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