Cid Teixeira celebra 95 anos na Bahia sem memória

Principal referência em História da Bahia, o professor fez da matéria assunto de mesa de bar e programa de rádio

[Cid Teixeira celebra 95 anos na Bahia sem memória]
Foto : Arlete Soares / Divulgação

Por James Martins no dia 12 de Novembro de 2020 ⋅ 08:33

O professor Cid Teixeira, mais importante guardião vivo da memória bahiana, comemorou 95 anos nesta quarta-feira (11). Ironia do destino, Mestre Cid, porém, acometido pelo Mal Alzheimer, vem perdendo a memória. O que talvez explique, embora não justifique, o nosso desmemoriamento coletivo (inclusive em relação a ele próprio, pouco ou nada referido na efeméride) pois, como disse um dia o também historiador Ubiratan Castro, “Cid é a memória da Bahia”. 

Seja como for, nada justifica que uma tal figura seja de repente apagada de nossa imprensa e discussões acadêmicas, que parecem não se comover sequer com datas redondas. Assim como nada justifica que a Cid Teixeira não se tenha concedido o título de professor emérito da Universidade Federal da Bahia. Mas, é bom deixar as coisas claras: não é ele quem perde nada com tais omissões, somos nós que perdemos tudo. Das redações aos campi — cada dia mais insignificantes. 

O desleixo da Bahia oficial em relação ao professor que fez da nossa história assunto de mesa de bar diz, evidentemente, mais de nós que dele. Outra verdade, no entanto, também precisa ser dita: nas mesmas mesas de bar, nos ônibus, nas ruas e praças (i. e., na Bahia real) o nome de Cid Teixeira segue vivo, íntimo e venerável, lembrado como o mestre e o camarada que é. “Eu fiz História por causa, e com a ajuda dele. E não sou um caso único”, depõe Jaime Nascimento, coordenador de cultura do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. 

O mesmo IGHB em que o menino Cid, na função de “recadeiro”, teve acesso a vasta biblioteca e às pessoas “mais significativas do estudo e da publicação da história na Bahia”, nas palavras do próprio. Logo cedo ele começou a ensinar, no Colégio São Salvador, onde era, não raro, mais jovem que a totalidade dos alunos em classe. Na faculdade de Direito conheceu o amor de Expedita, com quem casou-se em 1950 e a quem creditava grande parte de seu êxito. E parece que só esteve ali para isso, pois, ainda que advogado formado, foi o amor pela História que gerou seu segundo casamento. 

E foi a partir desse matrimônio com a História de H maiúsculo, que Cid Teixeira tornou-se uma espécie de pop-star da cultura local, inclusive estrelando comerciais na televisão. E se hoje excelentes divulgadores, como Eduardo Bueno, fazem sucesso no YouTube, o mestre baiano começou tudo isso lá atrás: com a vantagem de ser, ao mesmo tempo, o apresentador carismático e o historiador rigoroso. O que, como sói ser, lhe angariou prestígio, fama e... inveja. "Me chamavam, pejorativamente, speaker de rádio", conta em "Histórias: minhas e alheias" (2002).

Outra vantagem do filho de Ilha de Maré é não prender-se apenas aos grandes fatos, nomes e eventos históricos, mas destacar também dados da história corriqueira, cotidiana, de miudezas voltaicas que ele sempre soube trazer para revelar aspectos daquela. Com isso quero dizer também que Cid sabe dar sabor a um bom causo. Exemplo: ele almoçou certa vez num restaurante popular em Santo Amaro, onde apreciou muito o tempero da cozinheira. Ao elogiá-la, porém, ouviu o seguinte: “Moço, eu agradeço suas palavras, mas a verdade é que eu não sei cozinhar”. Pasmo, recebeu a explicação: “Acontece que eu sou médium e, toda vez que vou pra beira do fogão chega o caboclo Tupyara e é ele quem cozinha… eu não sei nem botar sal na comida”. Arremata o mestre, com seu vozeirão: “Me dei conta de que eu tinha comido alguma coisa feita pelo além”.

Falando nisso, vale lembrar outro episódio de sua trajetória, entre o fazedor histórico e o conhecedor da história. Em “Retratos da Bahia”, Pierre Verger narra que ao chegar a Salvador, em 5 de agosto de 1946, a bordo do Comandante Capela, “um companheiro de viagem me revelava os mistérios da cidade alta e da cidade baixa”. Pois esse companheiro era Cid Teixeira, que voltava do Rio para casa graças a um dinheiro conseguido a partir da intercessão de uma elegante senhora chamada (adivinhem aí) Cecília Meireles. Pois bem, já ali Cid cumpria a função de revelar nossos mistérios e converter novos baianos.

Tarefa que seguiu cumprindo também em relação aos nativos, nos educando a respeito de nós mesmos. Em 1967, na Rádio Cruzeiro da Bahia, lançou o programa “Pergunte ao José”, de grande sucesso, onde respondia dúvidas dos ouvintes sobre a história local. E na Rádio Cultura da Bahia desvendou, entre outros mistérios, os de nossa toponímia. Iconoclasta, explicava por exemplo que Itapuã não significa pedra que ronca, como consagrado, e sim “a pedra mais projetada, mais pra fora, a pedra mais alongada, mais distanciada. Em suma, a orla de pedra colocada mais distante, a última pedra”. Mas sua função radiofônica civilizadora ia ainda mais longe.

“Foi meu mais fecundo momento de professor”, diz no livro de memórias referido. Não sem antes pontuar que a atividade lhe custara “alguma reputação entre as áreas mais conservadoras da universidade”. Um quadro de seu programa era o Terceiro Intervalo, que tocava música erudita, na defesa da tese de que o povo gosta mesmo é do bom e do melhor. Conta Cid: “Um dia, coloquei uma música e depois fui à casa de alguém. A doméstica, analfabeta de pai, mãe, parteira e madrinha disse: - ‘Gostei muito daquele puladinho que o senhor tocou hoje!’. Eu disse a ela que não tinha colocado puladinho nenhum, mas ela retrucou: ‘Botou sim, um puladinho bacana, gostei do puladinho!’. E saiu cantarolando nada mais, nada menos do que a Suíte Quebra Nozes, de Tchaikóvski”.

Sempre disponível aos jovens curiosos, bom de garfo e de prosa, amante dos versos, o professor tornou-se ele mesmo uma figura histórica da terra. “Ele me provocou a fazer vestibular e depois me ajudou a conseguir uma bolsa de 50% na Universidade Católica, com o que consegui me formar”, lembra Jaime Nascimento, que procurara o mestre, na cara de pau, após vê-lo em comerciais do finado Banco Econômico, especialmente um sobre a história do acarajé. Cid é assim. E no silêncio a que está recolhido até de si mesmo, segue uma ágora com seu vozeirão de todo um povo. Agora, cabe a nós lembrarmos dele. Cultivá-lo-nos.

“Cantar de Mio Cid” é um dos poemas fundantes do ocidente. Faz parte da tradição de obras que passavam de geração a geração, sendo modificadas no processo. O professor Cid Teixeira, nuestro Cid, sempre soube que a História também é fabulação, um canto, uma trova. Amado amante dos poetas, um dia julgou ver a poesia pura na fala de um maluco no Sanatório Bahia, Largo da Lapinha: “Moço, vamos quebrar o sol, para fazer pirão de sombra?”. A atual geração que habita Salvador nem sempre parece à altura da cidade que herdou. Mas precisa pegar para si a responsabilidade medieval de tomar do canto do Cid, esse verdadeiro sol de nosso tempo, para fazer pirão de sombra e água fresca.            

Para começar, a Ufba deveria conceder-lhe o título de professor emérito, por cima das burocracias. Que ele desejava. Mas, independente disso, todo um ciclo de eventos sobre a história local pode ser realizado em torno ao seu legado, e com o seu diapasão. Em sua inacabada "História do Futuro", o padre Antônio Vieira, “imperador da língua portuguesa”, diz que o tempo consagra certas obras por livrar seus autores da inveja dos contemporâneos. Seja como for, passou da hora de a Bahia oficial louvar devidamente, como já faz o cidadão comum, o professor Cid Teixeira. Mesmo que ele não se lembre. Viva Cid!

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