As memórias de Obama não são para Lula

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[As memórias de Obama não são para Lula]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 19 de Novembro de 2020 ⋅ 10:29

Mesmo quem não tem a leitura como hábito deve ter passado o olho nas últimas horas em alguma informação sobre o lançamento do primeiro volume das memórias de Barack Obama. No Brasil, tão ou mais noticiada que o próprio livro foi a entrevista feita com o ex-presidente americano por Pedro Bial, veiculada na segunda-feira, na Globo. O livro, lançado nesta terça, é um tijolaço de 760 páginas e ainda não foi lido por ninguém, mas já é odiado por quem tem Lula como ídolo. 

No mesmo dia do lançamento, um site de esquerda trazia um artigo que já se referia às memórias de Obama nestes termos: ‘Aliado da Lava Jato: Por que Barack Obama tenta desconstruir Lula em seu livro de memórias’. Sim, Barack Obama, que ao sair da Casa Branca, assinou com uma editora um contrato de 65 milhões de dólares para a publicação de suas memórias, disse o que disse sobre Lula e o Brasil no primeiro volume porque, claro, é um aliado da Lava Jato e tinha, entre os projetos políticos para o futuro, a desconstrução do ex-presidente brasileiro. 

Entre a pretensão e a ingenuidade, está a consistência dos argumentos que sustentam a tese: Obama até hoje é magoadinho porque Chicago perdeu para Lula e o Rio de Janeiro a sede das Olimpíadas de 2016. Aquele estranho Prêmio Nobel da Paz de 2009? Uma consolação pela derrota de Chicago. Está lá, no texto, sem advertência de ironia. A raiva dos lulistas por Obama e a desqualificação das memórias tiveram data e hora para emergir: o momento em que Pedro Bial lê um trecho e faz uma pergunta sobre Lula, na entrevista de segunda-feira: “Constava também que ele tinha os escrúpulos de um chefão de Tammany Hall e circulavam boatos de clientelismo governamental, negócios por baixo do pano e propinas na casa dos bilhões”. O Tammany Hall era um grupo político democrático da Nova York do final do Século 18, com conotações mafiosas e cujos métodos fariam corar as lideranças fisiologistas e corruptas da política brasileira do Século XXI.

OS MARINHO - “Os brasileiros se lembram bem quando na reunião do G20, em 2009, quando você cumprimentou o ex-presidente Lula da Silva dizendo: ‘Esse é o cara. Amo esse cara. É o político mais popular da Terra.’ No livro, você fala de Lula, reconhece as conquistas sociais que ele teve, mas também diz que supostamente ele era uma espécie de mafioso político, envolvido em corrupções bilionárias e esquemas de propina. Então existem duas entidades políticas, o herói dos trabalhadores e o líder de gangue. E só existe um só homem, o Lula. Hoje você ainda diria que ele é o cara?” A resposta meio escorregadia de Obama a essa pergunta de Bial pouco importou aos lulistas magoados. Nesse caso, a pergunta tocou mais fundo. Aquilo só pode ter sido, argumentam, um ataque intencional sob a óbvia orientação dos irmãos Marinho a um maquiavélico entrevistador, unidos na estratégia de desconstrução de Lula. Tudo isso ancorado em quê? Bingo! No power point de Deltan Dellagnol. Essas coisas estão sendo escritas por aí como se a razoabilidade não precisasse mais mandar lembranças.  

O livro de Obama pode até não ser uma obra-prima no aspecto narrativo. É imenso, ainda virá um 2º volume, e os adjetivos piegas já sobram nas primeiras páginas. Mas é um testemunho essencial para a compreensão de como os Estados Unidos e o mundo vieram dar no que deram. No Brasil, antes mesmo de ser lido já ganhou uma característica extra: gerar no PT interpretações que não deixam nenhuma teoria da conspiração passar vergonha. 

 

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