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Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Jayme Figura: eterna figura de linguagem

O que sei é que Figura, presença marcante, movimento semovente das ruas da cidade, sempre foi um desafio e esse desafio não morreu com sua morte física

Jayme Figura: eterna figura de linguagem

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 30 de novembro de 2023 às 00:00

“Jayme Figura era doido?”, me perguntou um amigo, pouco tempo depois da notícia da morte do artista plástico, neste domingo (26). Respondi, sincero e perplexo, numa jogada poética: “Doido sou eu”. O fato é que não sei. E afinal, alguém sabe o que a loucura é? Talvez só quem seja de fato muito doido. Conheci e convivi um pouco com Jayme Figura, tive o privilégio de ver o seu rosto, de levá-lo em casa (não o Sarcófago, na Ladeira do Carmo, a casa civil, onde vivia com a família, ali perto da nova avenida Gal Costa), mas não sei dizer de sua lucidez nem de sua maluquez. O que sei é que Figura, presença marcante, movimento semovente das ruas da cidade, sempre foi um desafio e esse desafio não morreu com sua morte física.

Performer, músico, punk, militar, escultor, maluco, lenda urbana, Jayme Figura (na certidão Jaime Andrade Almeida) perturbou a lógica das classificações. Seria naif ou um artista consciente de seu pioneirismo e alcance? Pouco importa, a grandeza estava nele, a cada passo que preenchia a cidade com sua presença ao mesmo tempo ultra física e volátil, impalpável. Não por acaso era evocado como a um bicho papão para assustar criancinhas inocentes. “Se você não comer, vou chamar Jayme Figura”, ameaçavam os filhos muitas mães e pais. Papel em que ele não gostava de ser colocado. Ao que parece, nem ele sabia exatamente onde o limite entre ele e ele. Tanto que às vezes dizia querer separar plenamente Jayme de Jaime e noutras vezes atribuía coisas de um ao outro.

Pude vê-lo tomar cerveja de canudinho. Fui com ele ao Salvador Shopping, num dos passeios mais surreais de minha vida. Quando subimos a escada rolante, quem tava na frente adiantou e quem estava atrás atrasou. Ficamos praticamente sozinhos. E senti a dor do isolamento do artista. Mas também é verdade que muita gente vinha e cumprimentava Figura, lhe perguntava da saúde, demonstrava carinho etc. Das memórias ele não sairá nunca mais. E está também no belo filme “o Sarcófago” (2010), de Daniel Lisboa. “Vida-obra”, se disse de Pagu. Jayme Figura come até o hífen. Exu. As ruas estão abertas.