Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Artigos

/

Bebemos e comemos inseticida, porque o agro é pop

Bebemos e comemos inseticida, porque o agro é pop

Apesar de todas as denúncias sobre o uso de agrotóxico, embora elas sejam subterrâneas, tudo continua. Porque o agro é pop, o agro é tudo, o agro está na Globo

Bebemos e comemos inseticida, porque o agro é pop

Foto: Reprodução

Por: Metro1 no dia 07 de dezembro de 2023 às 00:00

No mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Marina Silva voavam em direção à Conferência do Clima - COP28, nos Emirados Árabes, o Senado, de Rodrigo Pacheco (PSD), aprovou a PL do Veneno, em meio a um vale-tudo para o uso de Venenos agrotóxicos.

Segundo vários cientistas com quem tenho conversado, ao longo desses últimos anos, o Brasil vive uma epidemia, uma guerra química. E está adoecendo, muita gente morrendo por causa do uso indiscriminado de produtos agrotóxicos. As informações a seguir são da doutora Sônia Corina Hess, pós-doutora na Itália e no Brasil, professora em Santa Catarina. Dados que também são usados por Larissa Bombardi, professora geógrafa da USP, exilada na Bélgica por causa das denúncias feitas em dois sólidos atlas publicados na Europa. 

Desde 2008, o Brasil disputa, quase sempre vencendo, o primeiro lugar como país que mais consome agrotóxicos no mundo, em torno de 20%, sem contar o contrabandeado, por exemplo, Mercúrio para a Amazônia.

De acordo com dados oficiais do Ibama, há 10 anos o Brasil usava 495 mil toneladas de veneno agrotóxico, mas em 2021 essa medição é de 719.507 toneladas, ou seja, 719 milhões de quilos de veneno agrotóxico, uma média de 13 kg por habitante.

O campeão absoluto é glifosato com 219 mil toneladas, usado nas lavouras de arroz, cana- -de-açúcar, café, citros, maçã, milho, pastagens, soja, fumo e uva. Glifosato já está proibido em duas províncias argentinas, Misiones e Chubut, pela comprovada explosão de doenças como câncer, linfomas, doenças hormonais, doenças neurológicas, etc.

Dos 32 venenos agrotóxicos mais usados no Brasil, 40% estão proibidos na União Europeia e nós continuamos usando. O 24d, famoso agente laranja usado como desfolhante na Guerra do Vietnã, é usado no Brasil como quem vai à esquina. Apesar de todas as denúncias, embora elas sejam subterrâneas, tudo continua. Porque o agro é pop, o agro é tudo, o agro está na Globo. Pela primeira vez, vemos a Globo emprestando o nome ao produto, porque paga uma fortuna, principalmente no horário nobre. O BBB está cheio de agroboy, a música sertaneja é uma imposição, as novelas Velho Chico, Pantanal, Terra e Paixão, e Renascer, que estreia em janeiro, são o Brasil rural, parte dessa máquina do agro.

Silvia Brandalise, doutora da Unicamp que criou o Centro Infantil Boldrini, especialista em Oncologia Pediátrica, diz: “nós respiramos inseticida, bebemos inseticida e comemos inseticida”. A incidência de câncer é ascendente entre crianças e adolescentes e a taxa de mortalidade em 5 anos do Brasil é de 50%, ainda muito alta quando comparada com os Estados Unidos, que é 20%. Brandalise cita a Malationa, usada no feijão e também no fumacê da dengue, que mata o mosquito e compromete a saúde das pessoas.

Dados do Instituto Nacional do Câncer José Alencar da Silva - que publicaram de olho nos olavistas: o câncer infanto juvenil tem aumentado no Brasil e hoje já representa a primeira causa de morte por doença entre crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos. Isso corresponde a 8% das mortes nessa faixa etária. Nos quatro anos do governo Bolsonaro, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos com ao menos um ingrediente químico banido em 48% deles. No governo Lula, 431 novos agrotóxicos com pelo menos um ingrediente banido em 38%. Nós estamos comendo, bebendo agrotóxicos e ninguém está nem aí, porque o agro é pop.

A Europa acaba de aprovar por mais 10 anos o uso do Roundup, o glifosato. Com uma diferença, o Brasil usa 5 mil partículas a mais na água. Eu medi a água de casa com ajuda do Butantã, deu microplástico, bebemos microplástico. Todo anticoncepcional feminino que cai na água, volta para casa e bebemos. Por isso tantas doenças hormonais, porque as companhias de água medem apenas os microorganismos, então tudo que cai na água, tudo que vem da chuva, nós comemos e bebemos.

É tamanho bombardeio marqueteiro, publicitário que não se consegue romper isso. Essa notícia da PL do Veneno saiu no Jornal Nacional apenas com uma notinha, como se não tivesse significado. Tem uma batalha acontecendo. Larissa Bombarde, geógrafa da USP que teve que se exilar, produziu dois atlas com dados oficiais do governo brasileiro e publicou em inglês. Por aí começa a discussão no parlamento europeu para a partir de 2024 produtos brasileiros começarem a sofrer sanções. E eles começam a usar isso na guerra comercial com o Brasil. É uma coisa hipócrita. O que eles não vendem, não consomem. Agora, o que eles vendem, consomem.

É parte da guerra comercial, é parte do Mercosul que Lula vai conversar com a figura da comunidade europeia. O que não tem reação, é que aqui todo mundo assiste, comendo e bebendo veneno, não estão se importando, frescura de “ecochato”. Esse assunto diz respeito à vida das pessoas, mas elas não se importam, é uma coisa assustadora.

*A análise foi feita pelo jornalista no programa Três Pontos, da Rádio Metropole, transmitido ao meio-dia às sextas-feiras