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Cada polícia prende o criminoso que pode

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Cada polícia prende o criminoso que pode]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 03 de Dezembro de 2020 ⋅ 08:06

A madrugada de tiros, explosivos, incêndios de carros, bloqueios de ruas e estradas e uso de escudos humanos nas ruas, em Criciúma, Santa Catarina, escancaram perguntas: em um mundo tão conectado, com câmeras que nos escaneiam até na disposição das vísceras, capazes de fazer reconhecimento facial, com tecnologia para rastrear carros, sensores que nos capturam por todos os lugares, como é possível que cerca de 30 homens tenham chegado à cidade em mais de 10 veículos pretos pichados sem chamar atenção durante o percurso? Como é possível fazer o assalto cinematográfico que fizeram, acionando explosões pelo celular, e  terem evaporado em seguida, abandonando os carros dentro de um milharal? 

O modus operandi do assalto à tesouraria do Banco do Brasil em Criciúma é conhecido há tempos em cidades do interior do nordeste. Recentemente, uma série de ações parecidas tem acontecido no interior de São Paulo. Por conta disso, muitos municípios do país já não têm agências bancárias, por impossibilidade de garantir a segurança. O método e o roteiro são os mesmos e não à toa o ‘novo cangaço’, esses grupos armados que invadem cidades barbarizando para roubar bancos, escolhe cidades médias ou pequenas, pela facilidade de bloqueio dos acessos e de intimidação das autoridades policiais e da população. 

O que chamou mais atenção no caso Criciúma foi a dimensão da estrutura de guerra e de guerrilha do bando. Para dificultar a reação da polícia, bloquearam um túnel com um carro incendiado dentro, fizeram algo parecido na frente do quartel da Polícia, dispararam cerca de 1.000 tiros, deixaram dezenas de quilos de explosivos nas ruas e malotes de dinheiro no asfalto para promover mais tumulto com a população disputando as cédulas. 

24 horas após o começo de tudo, a única coisa que a polícia de Santa Catarina havia conseguido fazer foi prender quatro pessoas que pegaram 810 mil do dinheiro deixado para trás pelos ladrões. E atire pedras quem não se curvaria para pegar cédulas, vendo-as aos milhares, voando nas ruas. Por mais que sistemas policiais e jurídicos justifiquem a prisão de quem pega dinheiro estrategicamente deixado na rua por uma quadrilha, o senso comum vê nessas prisões o que parece óbvio: é fácil encarcerar gente desarmada que cata dinheiro na rua. Diante da impotência perante o poder bélico dos ladrões, resta às autoridades acreditar no teatro de que estão punindo gente. Cada um prende o ‘criminoso’ que pode. 

CASA DE PAPEL - A logística usada nesse tipo de assalto aponta para uma especialização dos envolvidos, o que dificulta ações prévias de órgãos de inteligência policial. A expertise consiste em recrutar e treinar equipes com responsabilidades bem específicas. Um grupo cuida da aquisição da frota, outro da obtenção de explosivos, armas e munição, outro da sincronicidade das ações simultâneas durante a coleta do dinheiro, outro de rotas de fuga, esconderijos, estratégias para a divisão, transporte e lavagem do dinheiro etc, etc. É muita tecnologia envolvida para que a ação seja creditada apenas ao aperfeiçoamento de táticas de roubo a banco por parte de facções criminosas, por mais poderosas e articuladas que estas sejam. E o modelo se replica por todo o país. Um dia após Criciúma, houve um roubo semelhante em outro extremo do país, em uma agência do Banco do Brasil em Cametá, no Pará. Os reféns foram retirados de bares para virar escudos humanos. 

Em 2020, e tratando-se do sistema bancário, como acreditar que todo o dinheiro levado de Criciúma não contenha alguma tecnologia capaz de ser identificado, por série de empacotamento, que seja? E ninguém arrebenta um cofre de banco sem saber exatamente o que, onde e quanto foi buscar. Para além da dimensão cênica do assalto, quase nada se sabia sobre ele no final do dia seguinte. Nem mesmo a quantia do dinheiro levado. Uma nota do Banco do Brasil limitava-se a dizer que o banco não se manifestaria sobre os valores roubados. Presa ou solta, agora ou no futuro, a quadrilha já tem nas mãos um roteiro e tanto. Uma Casa de Papel para Criciúma, adaptável para qualquer cidade brasileira. 

 

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