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Infância morta e zumbis

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Infância morta e zumbis]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 10 de Dezembro de 2020 ⋅ 09:27

Duas cenas chocantes de uma mesma semana brasileira. Emilly Vitória tinha 4 anos. Sua prima, Rebeca Beatriz, tinha 7. As meninas brincavam na porta de casa, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense (RJ). Uma bala perdida atingiu a cabeça de Emilly. Outra, o abdômen de Rebeca. As meninas morreram e entraram para uma das estatísticas mais trágicas do Rio de Janeiro: em 2020 já são 20 crianças mortas nessas circunstâncias. Pela 20ª vez uma bala perdida encontrou uma criança no caminho. Todas em bairros pobres e de periferia. Ninguém viu entre os meninos mortos e as meninas mortas nenhuma criança branca atingida no Leblon, em Ipanema ou na Barra da Tijuca. Mas muita gente acha que isso de balas perdidas terem preferência por CEPs da periferia e por cor de pele é só coincidência.

Numa tarde de dezembro, uma terça-feira, no Centro de São Paulo, a menos de dois quilômetros do gabinete do prefeito da cidade, uma multidão de zumbis da Cracolândia avançou aleatoriamente sobre os carros nas ruas parar roubar de quem estava dentro deles tudo o que houvesse ao alcance dos olhos, depois de exigir celulares e carteiras. Armados com pedaços de pau, com pedras, cadeiras e quaisquer objetos pesados, acossaram motoristas, destruíram carros ainda em movimento, quebraram vidros de pára-brisas e janelas, entraram em alguns. As imagens feitas do alto registram motoristas tentando escapar e fracassando, avançando com homens e mulheres agarrados ao carro, subindo em calçadas, dando ré na contramão. Passar por aquilo e continuar dirigindo pelas ruas de São Paulo é coisa para fortes. 

A cada reportagem ou post em rede social sobre os dois episódios, ambos crônicos e já considerados características das respectivas cidades, a Cracolândia em São Paulo e as crianças assasinadas no Rio, o que aparece em comum é a referência à Polícia. Familiares e vizinhos acusam a Polícia do Rio de ter sido a responsável pelos tiros que mataram as meninas que brincavam na porta de casa. Argumentam que não havia operação, não havia confronto com bandidos. O que todos viram, dizem, foi um carro da Polícia disparar pelo menos 10 tiros na rua de Emilly e Rebeca. 

SÍSIFO - Diante das imagens de São Paulo, do comportamento de zumbis bárbaros se jogando sobre os carros para acossar motoristas e ocupantes, o que mais se pergunta é: cadê a Polícia? Como se pairasse sobre os dois episódios a leitura de que a Polícia está presente para apertar gatilhos e deixar crianças mortas na rua e está ausente ou impotente para impedir que as pessoas vivam o pânico de serem atacadas no meio da rua no centro da maior cidade brasileira e tenham seus carros destruídos tão somente por estarem circulando nas ruas do entorno da Cracolândia. Poucos dizem explicitamente, mas o tom das reações é o de que, onde é necessária, a Polícia falta, é omissa, ausente. Onde a infância brinca, sobram policiais para cometer abusos e disparar tiros. 

E segue a nossa crônica social. Crianças tombando como pecinhas frágeis no xadrez da violência policial brasileira e no bangue bangue do tráfico. Nenhuma solução parece crível para o cenário de fim de mundo na Cracolândia paulistana. Ali, há quase 30 anos zumbis vagam, entrando e saindo de projetos de ressocialização que parecem inspirados no mito de Sísifo: as pedras continuam desabando, empurrando-os para baixo. O episódio desta semana alimenta o ovo da serpente da violência brasileira, essa aposta crescente no poder do tiro policial para eliminar o medo. E para lembrar da realidade nossa aqui pertinho, um dado novíssimo: a Rede de Observatórios de Segurança revelou esta semana que 97% das pessoas que a polícia matou na Bahia eram negras, o maior índice do país.

 

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