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Terça-feira, 28 de maio de 2024

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Moraes, Musk, Lira e o Supremo no X- Twitter

Moraes, Musk, Lira e o Supremo no X- Twitter

Ao protagonizarem uma discussão pública e global, Alexandre de Moraes e Elon Musk praticamente turvam as imagens da instituição e da corporação que representam, respectivamente

Moraes, Musk, Lira e o Supremo no X- Twitter

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 11 de abril de 2024 às 00:31

É ingenuidade ou ignorância achar que o conflito que se estabeleceu entre Elon Musk, o dono do X, ex-Twitter, e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, se resume a uma questão de simpatia que exige posicionamento de torcedor, quem tá certo/quem tá errado, ou que esse embate não trará consequências ruins só vistas lá na frente sobre a polarização e a disputa política e ideológica entre o pior da esquerda e o pior da direita, com sequelas para todo mundo. A feiura do conflito começa por se dar já numa esfera quase pessoal, no que parece mais um bate-boca personalizado, fulanizado, como está na modinha dizer, entre dois homens e não entre as entidades, pública e privada, que eles representam.

Ao protagonizarem uma discussão pública e global, Alexandre de Moraes e Elon Musk praticamente turvam as imagens da instituição e da corporação que representam, respectivamente. As narrativas sobre o assunto, sobretudo as noticiosas, dão muito menos conta do Supremo Tribunal Federal, a Suprema Corte brasileira, e do X, a plataforma big tech global onde hoje se dá boa parte dos debates políticos e ideológicos do mundo, do que escancaram os traços das personas dos dois players nominalmente em cena: o bilionário excêntrico, extravagante e interessadíssimo em inflar os palcos e plateias da extrema-direita no mundo, e o ministro tornado um misto de personagem e super-herói nacional por parte da população identificada com a centro-esquerda.

Para esse segmento ideológico, Moraes, ou melhor, Xandão, é tomado como aquele que, praticante sozinho, pegou para si e teria matado no peito a sanha bolsonarista e militarista de melar as eleições no Brasil, impedir a vitória e depois a posse de Lula, e o responsável por ter mandado para a cadeia os toscos sem imunidade nem foro privilegiado que destruíram parte das instalações das sedes dos poderes. E não menos importante: foi sob o seu comando que o inquérito sobre a morte de Marielle Franco deslanchou e mandou para a cadeia três cabeças coroadas do Rio de Janeiro apontadas por delatores como sendo os responsáveis pelo assassinato da vereadora.

Lira e a eutanásia do PL

L Agora, estamos nessa fase do jogo em que o excêntrico global provoca, marcando com @ e tudo, um ministro da Suprema Corte do Brasil, tendo o mundo inteiro como audiência. E a resposta vem imediata, com acusação e processo, e também com as devidas @s marcadas. A torcida vai ao clímax. A direita excitada conclama o mundo a salvar a democracia brasileira, urrando que ela está sob ataque pela caneta monocrática de um ministro autoritário que caça o direito à liberdade de expressão. Já a esquerda simplificadora urra hashtags no próprio X: ‘somos todos Xandão’; ‘eu autorizo, Alexandre de Moraes’. Num passado distante, erámos “todos Guarani Kaiowá”. Agora o novo mote para chamar de seu pode ser escolhido entre ‘somos todos Xandão’ versus ‘somos todos Elon Musk’.

E por falar em Musk, as melhores e mais bem-humoradas referências para traduzir sua personalidade do pavão rico global e seu fetiche de brincar de dono do mundo e de Deus estão na ficção. Os excelentes ‘Não olhe para cima’, o filme da Netflix, e a 3ª temporada de ‘The Morning Show’, a série da Apple TV+, inspirados em Musk, o definem melhor que qualquer biografia e perfil. E enquanto os xuitters justificam o sticker ‘importante é opinar; entender do assunto é opcional’, o Brasil continua tonto diante do desafio de concretizar qualquer legislação para a regulação das redes. Se antes o projeto de lei apelidado de PL das Fake News estava dormindo no Congresso, agora Arthur Lira já anuncia que o estágio foi atualizado para o de coma.

E o que Lira quer mesmo é promover a eutanásia. Há zero possibilidade, nesse contexto, de o projeto voltar à pauta. Ao contrário. Os planos são descartar, jogar no lixo e começar tudo do zero, com um grupo de trabalho, que precisa ser escolhido, montado, aberto, etc etc. Tudo isso depois das eleições, pois agora está todo mundo ocupado em fazer campanha para seus prefeitos. Depois, já será novembro, véspera de recesso, de Natal, de Carnaval. Haja pipoca para acompanhar o duelo Musk x Moraes, com todo mundo confundido tudo numa mesma baciada: liberdade de expressão, ativismo político, legislação, política, justiça e lacre. É tão exaustivo participar do apocalipse nas redes….