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Um acréscimo de informação sobre o Golpe de 1964

Um acréscimo de informação sobre o Golpe de 1964

Essa criação da expressão Golpe Civil- -Militar não faz o menor sentido. Quem aplicou o golpe, quem fez o golpe foram militares. Não há um civil que participou do golpe propriamente dito

Um acréscimo de informação sobre o Golpe de 1964

Foto: Reprodução

Por: Metro1 no dia 11 de abril de 2024 às 00:38

O que importa atualmente, acho eu, é aprimorar as pesquisas sobre o Golpe de 1964. Há muito ainda a ser contado do que foi aquele episódio. Ele é muito mais expressivo de um momento, não só brasileiro, mas também de relações internacionais entre o Brasil com a União Soviética, ou Estados Unidos e a América do Sul, por exemplo. Além, do papel omisso dos europeus em relação ao que se passava na América Latina, e claro, a base do que aconteceu no Brasil, no papel dos militares na preliminar do que foi a tentativa golpista de Bolsonaro e companhia.

Leonel Brizola foi um dos acusados injustamente. A preocupação dele era exatamente evitar o golpe de um lado ou de outro, já que ele pretendia ser candidato à presidência na eleição de 1965. Os outros três pré-candidatos, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e o Magalhães Pinto, estavam todos, de maneira diferente, comprometidos com o recuso à inaceitação do governo Jânio, sendo que dois deles ainda estavam diretamente comprometidos com a derrubada de João Goulart, temendo que ele virasse à mesa para permanecer no poder de 1965 e em diante.

Há coisas muito curiosas nesta disputa de bastidores. Como uma atitude do Juscelino que motivou queixas, às vezes bem humoradas e outras nem tanto, do Tancredo Neves, que dizia: “muito engraçado a atitude de Juscelino ter recomendado a todos do PSD [daquela época], que nos puséssemos contra à aprovação do nome de General Castelo para presidência e ele mesmo votou a favor. Ele nos deixou com esse pepino, para aí assumir o poder. E poder mesmo na época, e com toda aquela reserva imensa em relação ao nosso partido, às nossas atitudes de apoiadoras e inapoiadores de Jango. A minha sugestão é que a gente relembre desse episódio trágico, mas com um acréscimo de informação, pesquisa e interpretação. Há muito a ser investigado.

Golpe cívico-militar

Essa criação da expressão Golpe Civil- -Militar não faz o menor sentido. Quem aplicou o golpe, quem fez o golpe foram militares. Não há um civil que participou do golpe propriamente dito. Eles fizeram, digamos, o recheio da conspiração, mas o golpe foi todo pensado e executado pelos militares, com o assalto do poder. O que os civis fizeram naquele golpe foi o que eles fazem em todos os outros: um segmento civil, majoritário ou não, adere à revolução ou ao golpe. Então, se o poder foi assumido por militares, o golpe foi militar e a ditadura foi militar. Há sempre civis envolvidos.

Quando o golpe é dado, como foi, por exemplo, contra Dilma Rousseff, esse sim é um golpe civil. Foi um golpe parlamentar, no uso arbitrário, desonesto, mentiroso, falsificador, fraudulento de um hábito contábil com precedentes históricos. Eles usaram a partir de um trabalho de investigação do Aécio Neves, que perdeu a eleição para Dilma. E ele se beneficiou disso, assumindo condições especiais no PSDB, no Congresso. Até que ele aparece em uma gravação, num grampo, tomando R$ 2 milhões de um dos donos dessa gigantesca exportadora de carne, JBS.

Essa expressão é ainda piorada quando, em vez de civil-militar, falam em cívico- -militar. Cívico nunca foi, pelo contrário. Foi de uma falta de civismo gigantesca, como ainda não tinha havido na história republicana, com as cassações que ela praticou de pessoas rigorosamente íntegras, apenas supostamente contrárias ao capitalismo ou reformistas, como era o que estava em pauta. O reformismo levou uma ampla camada a uma euforia gigantesca, muito utilizada pelas lideranças sindicais integrantes do Partido Comunista, então chamado partidão.

Essas camadas simplesmente não foram levadas a preparar-se nem para resistir a uma iniciativa contrária da direita e dos conservadores em geral, e nem para levar adiante as reformas. A situação foi absolutamente estapafúrdia, porque entusiasmadíssimos com o seu presente e seu imaginado futuro, não cuidaram nem do futuro, nem do presente, caíram no cavalo.

* A análise foi feita pelo jornalista no programa Três Pontos, da Rádio Metropole, transmitido ao meio-dia às sextas-feiras