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PCC avança sobre setor público em São Paulo

PCC avança sobre setor público em São Paulo

A vulgaridade com que as coisas são feitas no Rio ofuscam a escala com que o tráfico opera em São Paulo

PCC avança sobre setor público em São Paulo

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 18 de abril de 2024 às 00:17

No intervalo de uma semana, os paulistas levaram um tapa na cara duplo da ousadia e do poder da facção que monopoliza o tráfico de drogas no estado mais mais rico do país. Em duas operações em semanas seguidas, a polícia e a Justiça anunciaram ao Brasil que o Primeiro Comando da Capital era o real dono de duas das principais empresas de ônibus concessionárias do transporte público na capital e de uma série de empresas de limpeza pública e de vigilância que venceram licitações para explorar esses serviços em municípios paulistas. 

Na primeira operação policial, foram presos empresários com faturamento de centenas de milhões de reais anuais, e a Prefeitura precisou intervir nas duas empresas operadas indiretamente pela facção. Primeiro, a intervenção se deu para não colapsar o sistema público de transporte, já que as empresas eram, juntas, responsáveis por cerca de um terço da locomoção dos passageiros na capital e em parte da região metropolitana. Depois, para garantir a manutenção de milhares de empregos de funcionários que não sabiam que tinham como empregadores empresários laranjas da organização criminosa. Juntas, a Transwolff e a UpBus tinham uma frota de 1.300 ônibus e, desde que começaram a atuar como concessionárias da Prefeitura de São Paulo, receberam R$ 5,491 bilhões.

Uma semana depois, na segunda operação, sem vinculação direta com a primeira, a polícia amanheceu com o pé na porta de dezenas de empresários à frente de CNPJs que nos últimos anos venceram licitações em várias prefeituras do interior paulista em polpudos contratos para a prestação de serviços terceirizados de limpeza e vigilância. Entre os presos, três vereadores de diferentes municípios, revelando o óbvio: a fusão entre a política, na esfera eleitoral, e o tráfico de drogas. E apontando para uma quase injustiça: o julgamento do senso comum quanto ao estado de coisas no campo da criminalidade no Rio de Janeiro, tido como o laboratório do inferno brasileiro quando se fala em droga, tráfico, violência e promiscuidade entre poder público e agentes do crime.

Pó e cantor de pagode

Talvez em São Paulo a coisa seja tão abissal quanto, ou quem sabe maior, justamente por ser mais organizada, profissional, sofisticada. A vulgaridade com que as coisas são feitas no Rio ofuscam a escala com que o tráfico opera em São Paulo. Se com instituições públicas, como a Prefeitura de São Paulo, a facção consegue firmar contratos para faturar coisa da ordem de bilhões de reais, não é preciso muita imaginação para deduzir o seguinte: a quantidade de empresas privadas sólidas que devem funcionar, e sem medo de operações policiais, estruturadas com recursos vindos do tráfico, em coisas rentáveis e seguras, como supermercados, lojas de material de construção, postos de gasolina e farmácias, apenas para citar alguns segmentos. Fora serviços que funcionam de modo que sempre têm público assegurado, como salões de beleza, lanchonetes, restaurantes e lojas de cosméticos e roupas femininas.

Recentemente se viu um influencer marombado cair em desgraça após ser denunciado por usar sua empresa de bombas anabolizantes para disfarçar o que de fato lhe fazia levar vida de milionário: cocaína. As cápsulas supostamente vitamínicas eram o pretexto ideal para a droga da facção circular, mais uma fachada.

Na trilha do pó, a lavanderia do dinheiro não serve apenas para limpá-lo, mas principalmente para multiplicá-lo. Se operadores do PCC inseriram 1.300 ônibus num mastodonte como a Prefeitura de São Paulo e se mantiveram invisíveis por tanto tempo para auditores do município, para a Receita Federal e para a polícia, imagine o nó que não dão na economia dos bairros e de cidades menores, na economia privada. O suspeito de chefiar o esquema que fraudava as licitações das prefeituras para beneficiar empresas criadas pelo PCC é o cantor de pagode de nome artístico Latrell Brito, cujo perfil no Instagram tinha um milhão de seguidores e foi removido na terça-feira, após a operação.