Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp >>

Quarta-feira, 29 de maio de 2024

Home

/

Artigos

/

A tragédia do RS e a greve nas universidades

A tragédia do RS e a greve nas universidades

O pior não passou, e a destruição de praticamente um estado inteiro exige um processo de reconstrução que não se fará com poucos milhões nem em pouco tempo

A tragédia do RS e a greve nas universidades

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 09 de maio de 2024 às 00:12

‘Tudo demorando em ser tão ruim’. O que convulsiona os sentimentos provocados pelo que está acontecendo neste maio de 2024 no Rio Grande do Sul não é apenas a escala das sucessivas tragédias que se sobrepõem em cerca de 400 municípios do estado. O desassossego que se funde à empatia pelo sofrimento da população é alimentado pela continuidade do horror a que estão submetidas milhões de pessoas. Quando vemos uma tragédia ambiental, ou lemos sobre, geralmente estamos diante de um fato acontecido. Aconteceu, num período determinado de tempo e no espaço. Então contamos as vítimas e vamos nos ancorando no autoengano do pensamento mágico: “o pior já passou”. 

No Rio Grande do Sul, o pior não passou. Continua vindo. Ficamos estacionados assistindo à tragédia nas telas em casa com a impressão crescente de que um estado, cidades, zonas rurais, gente, animais, empresas, serviços essenciais, todos juntos e tudo ao mesmo tempo, estão aprisionados dentro de um presente contínuo que só piora, só se agrava. Autoridades da defesa civil, gestores públicos, governador, prefeitos, meteorologistas, hidrólogos, ambientalistas. Todos repetindo que virão mais chuvas, tempestades, ventos, frio, doenças, desabastecimento. O pior não passou, e a destruição de praticamente um estado inteiro exige um processo de reconstrução que não se fará com poucos milhões nem em pouco tempo. 

Fala-se no aeroporto fechado por talvez um mês. De várias pontes e estradas que não se constroem em menos tempo que meses, em cidades inteiras cujo diagnóstico sensato diz ser melhor serem reconstruídas em outro espaço físico. E quem, no Brasil, acredita em um poder público com capacidade, eficiência e recursos para reconstruir uma cidade em outro lugar, longe de potenciais áreas de alagamento, e de mudar de lugar o aeroporto de uma das principais capitais brasileiras? Os efeitos colaterais da devastação do RS são eventos com os quais o Brasil nunca lidou. 

Neste cenário de um país inteiro comovido com uma tragédia dessa magnitude, exigindo recursos bilionários para evitar a destruição física e econômica de um estado inteiro, as universidades públicas estão em greve. As pontas desses dois fatos não se conectam diretamente, mas o jornalismo opinativo pode fazer perguntas incômodas cujas respostas prontas não existem. Talvez, nesse caso, valha a máxima do mundo das redes, onde um dos mantras diz: “vocês não estão preparados para esta conversa”.

Imagens da solidão 

Talvez nós, professores da universidade pública, não estejamos preparados para essa pergunta. Provavelmente muitos de nós a considerem equivocada e traidora, gerada por falsas premissas, em academiquês. Ou ‘pelega’, se ainda estivéssemos sob a cultura sindicalista dos anos 80, 90. Não mais estamos, e o diagnóstico daquele sindicalismo ficou exposto, minguante e carente na rua, em São Paulo, no último 1º de Maio. Procurem as imagens da solidão do trabalhismo e do sindicalismo nas ruas. E, espelhado à tragédia do Rio Grande do Sul, o sindicalismo universitário tem agora um desafio e tanto. Há a máxima segundo a qual mais difícil do que entrar numa guerra é sair dela. Não é sobre a Ucrânia e a Rússia nem sobre o massacre em Gaza. É só sobre mais uma greve nas universidades federais e, agora, num contexto trágico. 

‘Só’ no sentido de apenas, em relação a uma guerra, embora não seja pouca coisa milhões de alunos sem aula por conta de reivindicações que são justas, sim, mas que dificilmente serão atendidas por força da greve no atual cenário. Com o fato de no meio de uma greve nacional das universidades haver uma tragédia também nacional e dessa dimensão, pode-se perguntar: quais deputados, senadores, quais ministérios, que autoridades orçamentárias vão dar atenção à pauta de reivindicações de professores e servidores técnicos das universidades? Como disse um professor, fazendo uma interseção entre a greve e um estado devastado, todas as atenções e recursos se voltarão para socorrer os gaúchos, sobretudo pelo Rio Grande do Sul ser o estado onde o governo Lula tem a pior avaliação no Sul. Nesse cenário, o sindicalismo universitário pode até não querer ter essa conversa, mas nós, professores, não sabemos nos fazer importantes há muito tempo, em contextos sem tragédia. Imagine no meio de uma.