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Quarta-feira, 29 de maio de 2024

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Dizer onde mora virou segredo de guerra em Salvador

Dizer onde mora virou segredo de guerra em Salvador

É que o lugar onde se mora virou informação militar dado o domínio das facções criminosas sobre os bairros

Dizer onde mora virou segredo de guerra em Salvador

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 09 de maio de 2024 às 00:00

“Onde é que você mora?”. O que antes era uma pergunta singela, inocente, tida até mesmo como retórica ou supérflua tantas vezes, hoje em dia pode causar muito desconforto e até mesmo confusão em Salvador. Um dia desses fiz uma matéria para o Metro1 sobre a pracinha do jogo de damas no Relógio de São Pedro. Eu queria mostrar que o local atrai para o centro pessoas de diversos pontos da cidade. Porém, sempre que perguntava onde os sujeitos moravam, se iniciava uma verdadeira e constrangedora “dança de rato”, com todo mundo saindo pela tangente, metendo os pés pelas mãos. Ora, direis: mas por que isso? E eu vos direi, no entanto: é que o lugar onde se mora virou informação militar dado o domínio das facções criminosas sobre os bairros.

Sim, desde que Salvador virou cenário de guerra, dizer onde mora pode custar a vida de pessoas inocentes, trabalhadores comuns, singelas donas de casa, estudantes cheios de espinhas. Por isso, é até uma ofensa perguntar. Coisa de vacilão ou de X9. Não sei se todo mundo sabe, mas o domínio de uma facção X sobre determinada localidade, implica que moradores de localidades pertencentes a facções Y sejam, automaticamente, considerados inimigos mortais. Mesmo que todo mundo saiba que a maioria dos moradores de quaisquer localidades são pessoas de bem, não envolvidas com as atividades criminosas.

Daí que não apenas casais de namorados podem ser impedidos de se visitar (ou mesmo de manter o namoro), como também parentes podem ser afastados pela geografia do tráfico. Se minha mãe mora no território cujos donos pertencem à sigla W, e eu moro no comando da sigla T, então não temos mais o direito de nos frequentar. Pra começo de conversa. Mas, não é só isso, há regiões centrais, em princípio neutras, que os criminosos adotam, se apossam, como suas. Por exemplo, um trecho da praia do Porto da Barra é declarado como território de Fulano do Mal. Se um morador de outro território que sequer saiba disso estiver por lá, inocentemente, estará correndo risco.

Por isso, pense duas vezes antes de perguntar onde qualquer pessoa mora em Salvador. Pois esse direito também foi confiscado pela nova lógica sem sentido nenhum que assola a capital.