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O ano que turvou a década

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[O ano que turvou a década]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 31 de Dezembro de 2020 ⋅ 09:21

Em poucos dias entraremos na terceira década do Século XXI e mal tivemos tempo para lembrar disso. As glórias, os fracassos e as tragédias que aconteceram perto ou longe de nós entre 2010 e 2020 estão agora meio turvas. As capas de jornais e revistas refletem o que muita gente sentiu ou desejou em relação a este ano. Numa capa da Time, um X bem grande em vermelho risca um cinzento 2020, como se o anulasse. A Carta Capital fez um trocadilho com o cinema e traduziu o isolamento social como “o ano em que perdemos contato”.

Depois de praticamente um ano inteiro vendo, lendo, ouvindo milhões de informações sobre a COVID e suas consequências no mundo e em nossas vidas, parecem muito distantes no tempo fatos tão marcantes da década. O tsunami no Japão, o apocalipse de lama de Brumadinho e Mariana, o menino sírio morto na praia turca, a eleição e queda de Dilma Roussef, a falência em cascata de mega empresas brasileiras no fluxo da Lava Jato, o fatídico 7 a 1, a eleição de Donald Trump, a facada em Bolsonaro, a investigação sem fim do caso Marielle. Tudo ficou longe e a sensação de falta foi a mais presente na vida de quem a gente pergunta. 

Os 365 dias de 2020 ofuscaram os 3.650 dias de uma década inteira. Lá em um distante 1999, havia uma lenda de que na virada do dia 31 de dezembro para 1º de janeiro de 2000, haveria uma pane geral em tudo, o tal bug do milênio. Bancos, computadores, aviação, indústrias, telefonia, comunicação. Tudo pifaria. Pane real é essa, a causada por um vírus sobre o qual, quase um ano depois, ainda se sabe muito pouco. 

Olhando em retrospectiva para o comecinho de 2020, ou para os clichês dos anos que acabam, duas coisas agora nos soam ainda mais involuntariamente irônicas quanto ao final de 2019: como eram bobas as teses dos economistas e especialistas sobre o futuro do mundo, e como ficou explícito o quanto os videntes são ridículos. Mas o jornalismo continua gostando deles e, no meio de tudo, estão aí, agora, de novo, os joãozinhos e senhorinhas com seu brilhantismo fake anunciando que 2021 será um ano de desafios. Juram? 

NUDEZ - Em um ano em que tivemos que aprender a respirar de máscara, reciclando sopros de angústia e impaciência, respirar foi o verbo que, paradoxalmente, encheu as ruas nos Estados Unidos e inspirou e empurrou marchas semelhantes em grandes metrópoles do mundo. ‘I can’t breathe’/eu não consigo respirar, as últimas palavras de George Floyd, morto sufocado pelo joelho de um policial em Minneapolis, ficaram inscritas para além da Covid em 2020, numa espécie de decreto à margem dos documentos oficiais, anunciando que os negros cansaram de morrer calados e sufocados pelo racismo. 

Entre mortos e deprimidos, entre pancadões, paredões e covidões, sem vacina, sem agulha e sem seringa, o país vê no horário nobre a campanha publicitária bonitinha do aplicativo de entrega de comida. Para dizer o quanto são ‘poéticas’ as cenas do exército vermelho de ciclistas e motoboys entregadores esfolando-se por tão pouco no asfalto das cidades, o anúncio nos vende na TV uma canção de ninar gente grande. Uma voz feminina afinada recanta Gonzaguinha e lembra que a vida é bonita. De máscara, respirando mal e fingindo ignorar a morte, o que nos resta? Fazer de conta, acreditar e insistir que logo ali teremos de volta a nudez do nariz. 


 

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