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Os comunistas chegaram e o Brasil quebrou

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Os comunistas chegaram e o Brasil quebrou]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 07 de Janeiro de 2021 ⋅ 08:13

Nos primeiros dias úteis de 2021, os brasileiros receberam duas informações pesadas: o presidente da República, Jair Bolsonaro, jogou a toalha, lavou as mãos e anunciou que o Brasil está quebrado e que ele não pode fazer nada. A cantora Elba Ramalho, após terminar a faxina de sua mansão em Trancoso, no sul da Bahia, contou ao mundo o que muita gente desconfiava, mas não tinha certeza: a pandemia é fichinha perto do que ninguém quer ver. Os comunistas chegaram para matar os cristãos. 
 
Mas, numa coisa, Elba foi, diga-se, mais proativa que Bolsonaro. Diferentemente do presidente, que já fechou questão dizendo que nada pode fazer diante do país quebrado, Elba agarrou um cordão de contas, algo que parece ser um jamapala, e garantiu que vai rezar para resistir e impedir a destruição comunista. Para mostrar que não anda só, dividiu a tela do anúncio com o padre Marcos Belizario, da Paróquia de São Conrado, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Moradora do Joá, Elba frequenta as missas do padre Marcos, que acabou de se recuperar da Covid-19. No anúncio, o padre não se manifestou sobre a chegada dos comunistas. Só levantou um terço para dizer que também estava rezando pela resistência. Se o inimigo era o vírus ou o comunista, não disse.
 
Já Bolsonaro foi, no mínimo, deselegante com Paulo Guedes, que, no final do ano, saiu fazendo um périplo por todas as plataformas midiáticas e noticiosas anunciando o quanto o Brasil havia avançado na economia e nas reformas do sepultado 2020. Escolheu a revista Veja para contar que nenhum país do mundo teria, em 2021, um crescimento tão grande como o Brasil. Segundo Guedes, seremos uma espécie de eldorado econômico global, “a maior fronteira de investimentos do mundo". Aí, menos de um mês depois, o presidente diz que o país está quebrado. E daí? Nada pode ser feito.
 
Diante do diagnóstico do Brasil quebrado, os ‘Faria Limers’, a casta do mercado econômico que trabalha na Avenida Faria Lima, em São Paulo, e que virou meme no ano passado por viver numa cultura própria, ficaram horrorizados. Como assim, o que o capital internacional vai pensar? Quebrado, em qualquer língua ou tradução, significa um país incapaz de honrar seus compromissos, o que, segundo a voz do mercado, não é verdade.
 
PEIXINHOS - Enquanto os cientistas do mundo usam todo o conhecimento acumulado para descobrir como o vírus se comporta, como se dão as mutações e como desenvolver antígenos, no Brasil, quem ou qual é o agente que potencializa a ação da Covid? “Essa mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter”. Depois de nadar no raso e fazer ironia com o vírus, dizendo a apoiadores que mergulhara de máscara para não pegar Covid nos peixinhos, o presidente continua inspiradíssimo e sendo personagem de 10 entre cada 10 memes que mereciam ser roteirizados. No contexto do país quebrado e do desemprego, simplificou: “O Brasil é um país difícil de trabalhar. Quando fala em desemprego, né, são vários motivos. Um é a formação do brasileiro. Uma parte considerável não está preparada para fazer nada”.
 
Na manhã seguinte, uma feira de empregos no Rio de Janeiro traduzia a qualificação do brasileiro que procura emprego e não encontra. Para 30 vagas de agente de limpeza, inscreveram-se 6 mil pessoas. A exigência era ter Ensino Médio. Muitos dos inscritos tinham nível superior. E mais um ps. do PR: menos de 24 horas após dizer que o país estava quebrado, Bolsonaro deu mais um dos seus giros de 180 graus, desdizendo-se. O Brasil, quebrado? Quem disse? “O Brasil está uma maravilha”. Quem disse o oposto? “Essa imprensa sem vergonha”.


 

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