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Segunda-feira, 24 de junho de 2024

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Ainda o show de Madonna: músicos estão com os dias contados?

Ainda o show de Madonna: músicos estão com os dias contados?

A substituição das bandas por uma avalanche de carreiras solo vem jogando no anonimato os músicos

Ainda o show de Madonna: músicos estão com os dias contados?

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 06 de junho de 2024 às 00:00

Eu sei que o show de Madonna, que encerrou com grande alarde a sua turnê no Brasil, já não é mais notícia. Porém, quero voltar a falar nele para abordar um aspecto que, me parece, não foi visualizado nem discutido como deveria. E fica mais atual a cada dia. Falou-se muito no sexo dos anjos e dos demônios em plena Copacabana, mas, para mim, o mais importante na apresentação da diva pop foi o fato de ela não ter músicos no palco. Sim, o tão elogiado show de Madonna foi uma espécie de karaokê onde ela cantou em cima de bases pré-gravadas, o famoso playback. Isto é, dizem que cantou, pois, pelo andar da carruagem, não duvido nada de ter sido dublagem também. Mas, vamos focar apenas no fato de a turnê milionária não ter gerado nenhum centavo para um baixista, um baterista, um guitarrista sequer — quer dizer, Madonna deve ter pago alguma coisa a quem gravou as bases, mas vocês me entenderam.

“The Celebration Tour” teria sido o início do fim da profissão de músico? Pode parecer que exagero, mas reparem o quanto vem decaindo o status da função que outrora foi tão vistosa, cobiçada e incensada mundo afora. Quem na faixa dos 40 anos não sonhou em ser membro de uma banda de rock? Por exemplo, um Eddie Van Halen, guitarrista da banda que levava seu nome. O fato é que a substituição das bandas por uma avalanche de carreiras solo vem jogando no anonimato os músicos. Todos sabemos que o tecladista do Chiclete com Banana era/é Wadinho. Mas você sabe quem toca teclado na banda de Bell Marques? A estrutura de grupo, que era predominante (Beatles, Rolling Stones, Mutantes, Secos e Molhados, Legião Urbana, Titãs), foi dando lugar à figura única do cantor e este deixou de se sentir obrigado ou de ter vontade de dividir seus holofotes com os acompanhantes. Lembro que cresci vendo Milton Guedes roubar a cena no show de Oswaldo Montenegro, Gil anunciando com gosto o solo de Arthur Maia, e o percussionista Paulinho da Costa brilhando junto da própria Madonna e de Michael Jackson. Agora, reflita: você que é fã de Anitta, por exemplo, sabe quem é o guitarrista que toca com ela?

A falta de fichas técnicas, como as que vinham encartadas nos discos, é outra pá de cal na cova dos músicos. O ambiente digital, que deveria facilitar a disseminação de informação variada, por enquanto tem afunilado tudo em torno dos cantores e/ou dubladores (pois a maioria só mexe a boca no palco). Nesse contexto, de franca extinção, o super show milionário de Madonna todo feito em playback é um paradigma terrível. E o fato de que ninguém sequer estranhou é, por sua vez, um sintoma de como está naturalizado o meteoro que cai sem dó ré mi nem piedade sobre os outrora dinossauros da música.