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Padre Pinto: atuação comunitária foi tão importante quanto a performática

Além do estandarte aos reis magos, ele também criou na Lapinha a Creche Tia Ziza, por exemplo

[Padre Pinto: atuação comunitária foi tão importante quanto a performática]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 07 de Janeiro de 2021 ⋅ 09:10

Há 15 anos, a Festa de Reis da Lapinha virou notícia nacional. Com destaque no Jornal da Globo do dia 5 de janeiro de 2006, uma matéria exibia a performance do padre José de Souza Pinto à frente da celebração que ele ajudava a rejuvenescer desde o início da década de 1990, quando criara o Terno da Anunciação. Vestido de Oxum em plena praça, Padre Pinto chocou parte da comunidade católica e acabou, como consequência, afastado da paróquia e de suas atividades sacerdotais. 

Há quem jure até hoje que, se não tivessem repercutido além das fronteiras locais (onde, de fato, já eram bem conhecidas), as peripécias do Pinto não causariam tanta celeuma nem resultariam na severa atitude da Igreja. Na citada matéria, ele mesmo garante que fez tudo sob consentimento  — inclusive do cardiologista. A reportagem, porém, também registra que conflitos locais já havia, e termina com o apelo plangente do padre: “Eu não quero sair daqui. Eu quero morrer aqui”. Não adiantou.

O que infelizmente não foi mostrado (isso a Globo não mostra), mas não podemos perder ocasião de abordar, é a importância realmente nacional que as folias de reis baianas têm para a cultura nacional. E também o papel fundamental, muito além do lado performático, do Padre Pinto para sua revivescência. Sobre o primeiro aspecto, basta lembrar que foram os nossos ternos e ranchos de reis o paradigma para o desfile das escolas de samba. 

Quem tiver interesse, procure no Google os predestinados nomes de Hilário Jovino Pereira e Joana do Passinho, primeiros baliza e porta-estandarte do Reis de Ouro  — por sua vez o primeiro rancho carnavalesco do Rio, espécie de Ilê Aiyê novecentista da Guanabara. E tudo o que decorre daí.

Já sobre a atuação do Padre Pinto, vale dizer que ela era, antes de tudo, comunitária. E por isso deu resultado. Muito próximo dos moradores, inclusive da malandragem, ele conseguiu organizar a festa (hoje infestada de paredões e desordem) e devolver-lhe o teor de prazer, não transtorno comunitário, fazendo as famílias frequentarem em vez de evadirem durante o ciclo.

Em depoimento ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, em 1999, ele explicou: “Já como pároco, alcancei violência em muitas dessas festas. Muita bebida, barracas em excesso para o espaço físico disponível. As famílias locais ficavam desconfortáveis, porque o pessoal que acorria ao bairro incomodava, pedindo água, permissão para usar o banheiro, e até mesmo fazer bagunça na festa. Muitas famílias saíam do bairro durante os festejos, por esse motivo. 

E completou: “Hoje, as coisas mudaram. Diminuímos sensivelmente o número de barracas, não permitimos a instalação muito próximo à igreja, está mais organizado, para que as famílias permaneçam e participem da festa do seu bairro. Montamos várias equipes durante as festas, recebemos todos os ternos, e cada um tem sua vez para fazer a apresentação”.

Além disso, Padre Pinto promoveu palestras sobre a história e as histórias da manifestação com Cid Teixeira, Consuelo Pondé de Sena e Hildegardes Vianna. E, em 1993, deu uma cartada fundamental: fundou o já citado Terno da Anunciação, o primeiro da Lapinha. Um terno cuja função, indicada no próprio nome, era/é anunciar os outros. Durante aquele período, então, o ciclo de reis vicejou e voltou a dar orgulho. Até aquela noite triunfal de 2006.

Atualmente, a Festa de Reis só murcha, apesar de todos os esforços, como tantas outras expressões culturais. A verdade é que o Pinto faz falta. Em silêncio na Paróquia São Caetano da Divina Providência, ele morreu em abril de 2019, aos 72 anos. Sua imagem, no entanto, cresce ano a ano como símbolo de criatividade, liberdade e irreverência.

Mas, creio eu que deveria inspirar também exemplos de sensibilidade social e mesmo disciplina. Afinal, além do estandarte aos reis magos ainda hoje exposto na Lapinha, Padre Pinto também forjou ali a creche Tia Ziza (hoje abandonada) pois sabia que, assim como Jesus, todo menino é um rei e precisa de cuidados.

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