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Uma nação à deriva 

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Uma nação à deriva ]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 21 de Janeiro de 2021 ⋅ 10:49

O futuro chegou e nos encontrou numa posição desconfortável, a de uma nação desgovernada avançando sobre o caos. Na semana em que o autocrata mais caricato da história dos Estados Unidos foi oficializado como demitido da Casa Branca após 4 anos de assombro e delírio, o presidente da República do Brasil, que emula o comportamento de Donald Trump, dá a parte da população a impressão de que estamos à deriva. 

A dois anos da eleição presidencial, da qual não se sabe como Jair Bolsonaro entrará ou sairá, a expectativa é a de que o seu desejo é o de termos aqui alguma reação parecida à dos trumpistas fanáticos que invadiram o Capitólio para impedir que o Congresso oficializasse a vitória eleitoral de Joe Biden. Não se trata de futurismo ou adivinhação, mas de dedução, com base nas declarações recentes do presidente brasileiro. Segundo Bolsonaro, se não tivermos votos impressos nas eleições de 2022, haverá reações parecidas por aqui. Se isso não é estimular seus apoiadores a invadir instituições, ganha uma caixa de cloroquina e uma bicada de ema quem desenhar o que é. 

Aprofundando a intenção de deixar claro o quão grande é o seu apreço pela democracia e pelas instâncias de Estado, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, o presidente disse que os brasileiros só vivem com liberdade e democracia porque as Forças Armadas assim o querem e permitem. Se os militares não quiserem, viram a chave, tudo muda, começam a dar ordens. Palavras tão democráticas foram ditas enquanto pessoas morrem asfixiadas sem oxigênio nos estados do Amazonas e do Pará, e o Brasil não sabe ainda quando nem de quem comprará insumos e vacinas para imunizar a população. 

Pelo menos duas gerações de brasileiros cresceram ouvindo e lendo que o Brasil era o país do futuro. Aquele futuro ao qual essa garantia se referia já chegou e é este presente que temos hoje: nele, não sabemos se comemoramos a chegada da vacina aos laboratórios, se lamentamos o fato de não termos imediatamente como comprá-la ou como fabricá-la, ou se ficamos chocados com tantos brasileiros que negam tanto a letalidade de um vírus que já matou mais de 200 mil brasileiros quanto a eficácia e a nacionalidade das vacinas.  

BURROS - Embora pareçam uma coisa só, país, estado e nação são coisas diferentes. A noção de deriva, aqui, é aplicada à nação, à população, aos brasileiros, esse bloco de gente que nomeamos povo. País é a dimensão geográfica, a extensão de terra, e estado é o conjunto de instituições e leis, aquilo a que os políticos adoram se referir quando dizem que no Brasil as instituições estão funcionando muito bem. Já a dimensão nação do Brasil, no entanto, com exceção das elites, parece estar funcionando muito mal, sem perspectiva, caindo em um buraco de desesperança aberto pela pandemia e aprofundado pelo comportamento presidencial. 

Trump voltou para a cápsula de bronzeamento artificial de onde saiu, e a posse de Joe Biden nos Estados Unidos não representa a redenção dos pobres e humilhados pela América do ‘Great Again’, que separou crianças pequenas de pais imigrantes e as segregou em galpões, que construiu um muro separando a fronteira do México. Mas é uma redução da piora, aquilo com que muita gente no Brasil sonha, um tempo em que as coisas parem de piorar, em que possamos ver o estado comemorar a negociação para a compra de imunizantes e não de armas. Estamos cada dia mais pobres, mais burros, mais desempregados e mais intolerantes. Agora demos até para parar de respirar, por falta de oxigênio. A vacina chegou, mas aqui já acabou. 2021 já começou and we didn’t, Jair. Mas Santa Dulce, o Senhor do Bonfim e o Cristo Redentor, dizem, haverão de prover o milagre da imunização do rebanho. Se não, vem aí o BBB21 para entreter o país. 

 

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