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O segundo ano do resto de nossas vidas

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[O segundo ano do resto de nossas vidas]
Foto : Angelucci Figueiredo/Divulgação

Por Malu Fontes no dia 18 de Fevereiro de 2021 ⋅ 07:59

As civilizações inventaram os deuses, a arte, descobriram drogas, criaram rituais e calendários, tudo para driblar as dores, o sofrimento, expandir a consciência e a alegria, dar sentido à vida, contar o tempo. Calendários à parte, o brasileiro decidiu que os anos e os planos só começariam após o Carnaval. Aí veio a Covid, embolou o tempo, bagunçou o calendário, os planos, acabou com o Carnaval e, um ano após o começo de tudo, a sensação de deriva não passa. 

Lidar com a informação de que 2021 já começou e já estamos no segundo ano da pandemia é inevitável. O que temos para o ano novo parece desanimador até para os coaches que há tempos decretaram a morte do fracasso. A agenda nacional e local pós-Carnaval começou com toque de recolher, perspectiva de lockdown e a população polarizada diante de tudo o quanto é assunto, da reabertura das escolas ao valor atribuído à ciência e ao negacionismo, da pandemia e da vacina. 

Na ex-terça-feira de Carnaval, houve panelaço no Horto Florestal, um dos metros quadrados mais caros de Salvador, em um protesto cobrando a reabertura das escolas privadas. Do outro lado da cidade, um grupo de pais foi para a porta do edifício do prefeito Bruno Reis protestar pelo mesmo motivo. E por falar em reabertura das escolas, o Poder Judiciário talvez deva uma resposta à pergunta que professores e pais contrários à retomada das aulas, em meio à segunda onda do vírus, fazem aos magistrados. Por que juízes determinam a reabertura das escolas se a própria justiça continua “em casa”, em trabalho remoto? Se o acesso à educação é um direito fundamental do cidadão, acesso à justiça também não é? 

BRANQUITUDE - Se parece natural boa parte da população estar exausta de notícias ruins, onde ir buscar fatos agradáveis para sobrepô-los à sucessão de assombros de todos os dias? A vacina que ainda nem chegou já acabou na maior parte das cidades brasileiras. Há milhares de processos judiciais contra pessoas que furaram a fila da prioridade da imunização. Há profissionais de saúde aplicando vacina de vento em idosos, sem conteúdo algum no êmbolo das seringas. O presidente da República está propondo aumento de taxação tributária para as redes sociais e a tirada de circulação de jornais por publicizarem coisas que não o agradam. Um deputado federal foi preso por violação à Lei de Segurança Nacional e à Constituição. 

A agenda negativa continua. Um general do Exército debocha do Supremo Tribunal Federal e de seus ministros por conta de um tuíte cujo contexto de elaboração do conteúdo veio à tona na semana passada. O post do general Eduardo Villas Bôas, em 2018, ameaçava o STF caso o julgamento de um habeas corpus desagradasse a expectativa dos militares quanto ao ex-presidente Lula ir ou não para a prisão. Chegamos a um ponto em que liberdade de expressão é confundida com direito de incitação ao crime, à violência e à violação ao estado de direito. 

O Big Brother, que era um programa de entretenimento, se transformou em uma esfera pública de discussão tensa sobre o que é racismo e anti-racismo. A propósito de combater o preconceito racial, ativistas negros dão, no programa, munição à pauta conservadora. Entre as pérolas da semana, uma integrante da casa adjetivou uma atriz branca nesses termos: “toda cagada na branquitude”. Na quarta-feira de cinzas, um apresentador de programas populares na TV e com livre trânsito no Palácio do Planalto sugere: "O que vou falar pode até chocar, mas está na hora de fazer igual fez em Singapura. Entrou um general, consertou o país e, um ano depois, fez eleições. Mas primeiro chamou todos denunciados e disse: 'vocês têm 24 horas para deixar o país ou serão fuzilados'". Alguém, por favor, viu, ouviu ou leu alguma notícia boa nesse começo de ano do fim do mundo? 

 

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